Tangentes e secantes
Certo dia, conduzia eu pela Av Infante D Henrique em Lisboa, após sair da então rotunda do Cabo Ruivo, e ao passar no então recém-inaugurado viaduto em curva, resolvi mudar da faixa da esquerda para a da direita, recordando as minhas aulas de condução poucos anos antes: “conduz-se pela direita”. Pouco depois, passa por mim em sentido contrário uma outra viatura. Foi à tangente, pensei.
Na semana que agora terminou, assistimos incrédulos ao escalar de declarações do líder da nação mais poderosa do planeta até à ameaça de “liquidação de uma civilização inteira”, e pouco ou nada reagimos. Algumas horas depois, e a escassos minutos do prazo limite anunciado, surge a boa nova: “vamos entrar em negociações, e estamos em pausa na guerra”. Foi à tangente, pensaram muitos.
No nosso país, longe dos centros de decisão, nem nos damos conta de tanto que se joga a outros níveis, em outros fóruns. Seguimos aqui, como que numa bolha, onde os políticos da nossa praça se entretêm com o que menos interessa, mas a comunicação social acompanha, frenética. A nossa comunicação social é um outro caso de estudo. Abdicou há muito de ser o quarto poder, uma entidade etérea dedicada a ser um contra-balanço do poder. Algo que fiscalizasse quem manda, que expusesse o que está mal, denunciasse, e provocasse reação do público. No entanto, e não acredito que seja apenas por causa das redes sociais, os média nacionais passaram a ser um espaço de eco da propaganda de quem estiver no governo, por um lado, e de quem mais patrocina esta ou aquela corrente de pensamento, por outro. Tanto assim o fazem que, assumiram a perda de credibilidade, e dedicam-se a suportar o seu modelo de negócio. Explorando o fundo da sociedade, escavando-o, e tocando apenas na superfície do que mais importa. Prosseguem na difusão de debates entre comentadores, que mais não são do que encartados desta ou daquela corrente política, escasseando o pensamento crítico sobre cada tema, remetendo tudo para a trincheira. Uns contra outros. Tudo contra todos. Só assim, a arena tem audiência. É preciso sangue. Há muito que se tornaram uma secante.
Ainda no nosso país, o recém empossado ministro da administração interna promete mão pesada para os meliantes do volante. Para os assassinos da estrada. Para os maus comportamentos. Se vão fiscalizar mais, é uma outra questão. Se vão caçar mais multas, para nem passar pela cabeça conduzir a 1km/h acima do limite, é outra questão. Sobre as penalidades, eu julgava que ainda competia aos tribunais julgar. Mas devo ter lido mal, ou é à tangente.
Não sei se os especialistas do “flood the zone” já se lembraram de mais alguma coisa para arreliar os nossos dias, ou se estão apenas na fase de nos enganar sobre o que estão a negociar com o Irão, ou se vão, mais uma vez, lançar um ataque a meio de negociações. Se assim fôr estaremos perante mais uma tangente que resvalou para uma secante.
Enquanto isto, no universo das grandiosas grandes empresas, o que subtilmente começou em hotéis, e viagens, está a passar para tudo o resto. Refiro-me neste caso ao “preços dinâmicos”. Aparentemente, os bancos centrais estão a começar a sentir dificuldades em calcular os níveis de inflação, porque a prática de preços dinâmicos se está a disseminar. Em especial, pelo mundo das compras online onde as rainhas e reis do sector já praticam mais esta variedade de marketing, ou será melhor chamar pelo nome correto: mais uma forma de assaltar os consumidores. O nível de integração que a IA está a permitir, vai conduzir a muito curto prazo a que alcancemos o que se chama de inflação individual, ou seja, de tanto analisarem perfis de consumo, e individualizarem tanto, vai ser possível a estas empresas ir variando os preços individualmente a cada consumidor. O objetivo é descobrir o valor máximo que cada um se dispõe a pagar por qualquer produto ou serviço.
Em 1755, após o terramoto de 1 de novembro, a cidade de Lisboa (e não só) foi abatida por um tsunami cujos efeitos quase alcançaram Campo de Ourique. “Rés-vés Campo de Ourique” é a nossa versão popular de “foi à tangente” desde então. E é aplicada amiúde.
Depois da última simulação de terramoto feita em Lisboa, tudo me leva a crer que em caso real, estaremos perante mais uma gigantescas secante.
As retas tangentes e secantes definem a posição relativa entre uma reta e uma circunferência. Uma reta tangente toca a circunferência num único ponto, sendo perpendicular ao raio, enquanto uma reta secante intersecta-a em dois pontos distintos. Relações métricas permitem calcular segmentos, como o quadrado do segmento tangente ser igual ao produto da secante inteira pela parte externa. As retas tangentes e secantes definem a posição relativa entre uma reta e uma circunferência. Uma reta tangente toca a circunferência num único ponto, sendo perpendicular ao raio, enquanto uma reta secante intersecta-a em dois pontos distintos. Relações métricas permitem calcular segmentos, como o quadrado do segmento tangente ser igual ao produto da secante inteira pela parte externa.
Aos ainda acham que isto da geometria, trigonometria e matemática, não se aplica ao nosso dia-a-dia, pensem de novo. Olhem que de tanta tangente que há por aí, vamos passar a sofrer com uma chuva de secantes.
Cuidem-se!
Comentários
Enviar um comentário