Pura ficção – A vida de Adriano – Parte VII

Adriano ficou à porta do trabalho, dentro do carro, a pensar sobre o que acabara de acontecer. Já era o terceiro fim de semana passado com Teresa. Três noites juntos a cada fim de semana, e para ele parecia que se iniciava uma rotina. Mas esta manhã, o ritual de despedida entre eles foi ensombrado pelo seu silêncio. Ele ainda não percebeu se foi falta de reação, falta de saber o que querer, mas o que sabe é que lhe pareceu definitivo. E foi. Desde essa altura, apenas se viriam a encontrar em duas ocasiões e sempre num âmbito social. Uma vez numa exposição de um pintor que ambos já conheciam antes, e outra vez, num encontro casual na rua, no centro da cidade, onde ela apenas lhe correspondeu com um sorriso e seguiu caminho.

No serão anterior, uma noite de domingo que caía o fresco e o vento se fazia sentir na rua, e que os fez abrigarem-se em casa mais cedo do que antes. Adriano sentiu Teresa pensativa.

- Está tudo bem? – pergunta Adriano com ar preocupado

- Sim, está.

- Não me parece.

- Porquê?

- O teu rosto fala comigo, já te tinha dito – disse, aproximando-se para a beijar

- E não consegues adivinhar? – responde Teresa depois de corresponder ao beijo

- Eu só vejo que algo se passa... estás a pensar em algo que te preocupa, é só isso. E já me parece alguma coisa...

Teresa sentou-se ao colo de Adriano e começou a fingir que dançava para ele. Adriano deixou-se distrair e não insistiu. Pensou que ela não quereria falar, e respeitou isso.

Mas na manhã seguinte, enquanto seguiam no trânsito, Adriano conduzia com atenção ao tráfego intenso típico de uma manhã de segunda-feira, e Teresa estava a falar. Falava da diferença de idades entre eles. Onze anos velha que ele, pensou ele não ser assim tanto, e porque importaria isso agora? Teresa falou da filha, que namorava um homem vinte anos mais velho que ela, e que isso a preocupava, e tinha já algumas conversas bastante azedas sobre isso. E agora, estava ela, Teresa, a mãe que repreendia a filha por estar com um homem bastante mais velho, e que ele apenas se estava a aproveitar dela, e da sua juventude, da sua inocência e da sua ingenuidade, também ela a aproveitar-se de alguém mais novo. Adriano parou naquele pensamento. Onze anos mais novo que ela. Isso era um problema? Ele não entendeu, e ficou a tentar perceber o que tinha de tão errado nisso. Não tinham uma diferença de 20 anos ou mais. Nem era que ela fosse mais velha ou da idade da sua mãe. Aí – reconhecia ele – poderia ser estranho, mas afinal, porque que tem o coração, ou aquilo que sentimos ser inibido por causa da idade? Ele até achava que Teresa era “areia demais para a sua camioneta”. Ela olhava para ela como uma deusa que descera do olimpo para estar com ele. Ele quase se sentia desconfiado por ela apreciar tanto a sua companhia. Ele que se sentia, afinal, tão inferior a ela. Ela que declamava em lançamento de livros, ela que cantava fado em eventos culturais, ela que escrevera um livro de poemas, ela que parecia viver num mundo tão diferente do seu, mas que o apreciava. Não raras vezes, ele perdia-se a pensar na sorte que tinha. Sim, porque para ele, só a sorte explicava o interesse que esta mulher tinha nele. Bens materiais não seriam fator, por certo.

Por isso aquela manhã lhe estava a parecer tão estranha e diferente. Enquanto ela falava dos problemas das diferenças de idade, ele estava perdido nestes pensamentos. Sem perceber o motivo, continuava a ouvi-la. Desta vez, ela falava da história d’A dama das camélias, e de como, por amor, o protagonista da história lutou pela sua dama, prosseguindo com um aflorar de “O amor em tempos de cólera”. Fosse por ela falar de Alexandre Dumas, ou Gabriel García Marques, ele estava assoberbado, e confuso, sobre o que deveria responder. Estava literalmente a ficar assustado por não conseguir saber o que responder. Sentiu-se imbecil e inculto por não conseguir acompanhar. Estava a sentir que ela lhe escapava ao longo da viagem. Ela continuava a falar, quase a dissertar sobre amores entre pessoas de diferentes idades, dos que cuidaram do outro até ao fim dos seus dias.

Adriano continuava impassível. Sem reagir, apenas conduzia, e mantinha-se atento ao trânsito. Chegavam à estação do Oriente, onde Teresa costumava apanhar o metropolitano ou para o trabalho ou para o seu apartamento, onde mudava de roupa para seguir para o trabalho.

Adriano parou em segunda fila, e olhou para Teresa. Ela beija-o prolongadamente, abre a porta do carro, e até de fechar, profere:

- Adeus!

O telemóvel de Adriano toca, e nesse preciso momento, Teresa fecha a porta do carro e afasta-se. Adriano, perdido nos seus pensamentos, e na sua falta de reação, olha para o telemóvel. Percebe que é do seu trabalho. Atende a chamada, liga os quatro piscas do carro, e depois de responder que está a cinco minutos de chegar, desliga o telemóvel, coloca a mudança do carro em primeira, olha pelo espelho para verificar que não vem nenhum outro carro a aproximar-se, e vislumbra ao longe a silhueta de Teresa a atravessar a rua para descer à entrada do metropolitano. 

Os cinco minutos que levou até estacionar junto ao trabalho pareceram-lhe horas infinitas. A sensação de perda que o acometeu quase o levaram às lágrimas, mas a proximidade com a chegada ao trabalho fez com que prendesse tudo o que estava a sentir, e engolisse. Tal como tantas vezes fez na infância e juventude, perante adversidades, respirava fundo, e arrumava qualquer dor num canto interior. Sem saber se isso seria “compartimentalizar”, ou reação a traumas, há muito que ele decidira que nada poderia afetar a sua vida profissional, pois essa era a base para tudo na sua vida. Haviam coisas pelas quais ele não queria voltar a passar, e isso requeria ter uma fonte de rendimento. Cerrar os punhos e seguir. Nada mais a fazer.

Naquela manhã, as colegas dele – senhoras com quase tantos anos de serviço quanto ele de vida – viram que ele não estava bem, e optaram por lhe dar espaço. O seu semblante estava diferente do habitual. Ele não se juntou a elas para tomar café e ouvir os mexericos do escritório. Não foi ver das colegas estagiárias com quem metia conversa normalmente. Simplesmente, sentou-se à secretária e começou a atender chamadas, a registar encomendas, e a arquivá-las maquinalmente. 

Nem sequer à promotora que trabalhava agora junto dele para atender as chamadas do público em geral, e os que apareciam no showroom na entrada da empresa, ele dirigiu mais do que um “bom dia” quando entrou. Matilde, a assistente de showroom, como Adriano lhe chamava por brincadeira, das várias vezes que regressava do showroom falava sempre com ele. Ora a contar uma peripécia, ou algo engraçado que partilhava com ele. Tinham uma relação próxima, e de carinho um com o outro. Ela, uma mulher mulata, magra e elegante, de gargalhada fácil, tinha feições atraentes, e sempre se sentiu protegida por Adriano. Ele sempre a acompanhou nos primeiros tempos de empresa, explicando como as coisas funcionam, quem é quem, e muitas vezes ia com ela até à estação dos comboios, sendo que dali cada um seguia numa direção diferente. Agora, era menos comum, visto que ele ia mais vezes de carro.

À hora do almoço, e como era segunda-feira, Adriano saiu para almoçar com os vendedores da zona dos clientes que atendia ao telefone. Era um ritual comum, promovido pelo chefe do departamento, que dizia que quem atendia as lojas ao telefone, era mais parceiro dos vendedores que dos outros colegas que atendiam o telefone. Naquele dia, nenhum dos vendedores se apercebeu do estado de espírito de Adriano. Ele até tinha preparado todas as encomendas que eles lhe deixaram na secretária. Codificou todas as linhas, verificou os preços, e só faltava registar em sistema informático para finalizar o tratamento. Demoraram um pouco mais naquele dia, pois foram almoçar a um restaurante novo, um pouco mais distante.

Matilde aproveitava a hora do almoço de Adriano para usar o seu telefone, visto que o da sua mesa de trabalho não fazia chamadas diretamente ao exterior, e ela precisava de fazer marcações de demonstrações em loja e ao domicílio, a outra parte do seu serviço. Outra das coisas que ela fazia amiúde era tomar o café na secretária de Adriano, o que ele sempre lhe chamava a atenção, pois já não era a primeira vez que ele descobria marcas de chávena de café no seu bloco de apontamentos. E este, não seria um dia diferente, não fora um pequeno detalhe. 

Fosse por alguém a passar ou algo que a assustou, Matilde, sem querer, tombou a chávena cheia de café diretamente em cima do bloco de encomendas que Adriano tinha estado a terminar de preparar. As que apenas faltava introduzir em sistema. As que ele havia passado mais de uma hora antes do almoço a organizar, e a validar, para poder prosseguir. Aflita, Matilde tenta minimizar o desastre. Foi buscar papel à casa de banho, trouxe guardanapos do refeitório, começou a separar folhas, que pingavam copiosamente. Ela estava em pânico, e enervada, e só pensava como é que uma chávena encharcou tanto papel, e como é que se espalhou tanto.

Adriano vinha à frente dos vendedores, regressando do almoço, com o casaco do fato pendurado no braço, quando contorna os biombos que marcam a entrada no departamento, e a zona onde tem a sua secretária e se depara com Matilde agachada, a pendurar notas de encomenda a pingar de café à beira da secretária. Ela levanta-se assustada, e coloca as mãos a tapar a boca, e fica com os olhos em lágrimas.

- Desculpa... – diz entre soluços

Adriano fica em silêncio absoluto. As mãos seguram o casaco, mas o seu olhar está diferente. Dentro da sua cabeça desenrola-se toda uma trama. O que fazer? O que pensar? Matilde insiste:

- Por favor... diz alguma coisa – e aproxima-se dele – queres me bater? Manda-me pastar! Manda-me à merda! Mas não fiques assim, por favor!

Adriano permanece em silêncio. Parece ter petrificado. Os vendedores que o acompanharam ao almoço, optaram por se afastar perante o cenário desolador. Foram para outra zona do departamento onde, em pé, conseguiam ver o que se passava. Adriano continuava sem proferir uma única palavra. Aquele silêncio provoca em Matilde o derramar de lágrimas em silêncio também. Ela tenta rir, como se fosse outra de tantas coisas que juntos se riram antes, mas desta vez, só lhe saem soluços de quem segura o pranto.

Adriano pousa o casaco na cadeira de Matilde, arregaça as mangas, e contorna a sua secretária e dirige-se aos vendedores:

- Vocês têm os duplicados das encomendas, não têm?

- Sim, eu tenho ali na mala – responde Alexandre, um deles

- Eu tenho de ir ao carro, mas trago-te já – responde Joaquim

- Não te preocupes que tenho aqui mesmo – responde Henrique, sacando das cópias das suas encomendas de uma capa que traz nas mãos

- Muito bem. Tragam-me então por favor, e dêem-me uma hora e meia para recuperar isto. – responde Adriano perante o olhar dos vendedores.

O chefe deles está a assistir em pé, não muito longe, mas sem dar nas vistas.

Adriano regressa à sua secretária perante uma Matilde ainda em pânico.

- Vais por favor ao refeitório e pedes à Dª Adelina ou ao Sr. ‘Manel’ um alguidar grande que eles lá têm, e três panos de cozinha que possam ir para lavar – diz para Matilde com um olhar sério

- Ok – balbucia Matilde que sai a correr em direção ao refeitório

Adriano vai até à casa de banho, e recolhe várias folhas de papel para secar as mãos, e regressa à secretária para tentar secar uma parte da secretária que lhe pareceu menos afetada. Quando Matilde regressa com o alguidar e os panos de cozinha, vê que também trouxe uma toalha maior.

- Boa. Vamos colocar essa toalha aqui no chão para apanhar as pingas que caírem agora. Dá-me um desses panos.

Matilde assim faz, e de seguida fica boquiaberta, pois Adriano começa a empurrar todas as encomendas para dentro do alguidar que também colocou no chão junto à secretária. O monte de papel caiu como uma pasta encharcada e, agora inútil e sem salvação. Além disso também um bloco de apontamentos é atirado para dentro do alguidar. Com o pano de cozinha, ele começa a limpar o café derramado que ainda tem na secretária, também em direção ao alguidar. Pouco depois, a secretária começa a parecer mais limpa. Nessa altura, ele vira-se para uma das senhoras que trabalham com ele, e pede-lhe um spray que ele sabe que ela guarda no seu armário. Aplica esse spray na secretária e num dos outros panos de cozinha, começa a limpar a secretária, e pouco depois a secretária deixa de ter vestígios de café. Então, ele senta-se na sua cadeira, que incrivelmente não tem vestígios de café – Matilde ficou com a roupa irremediavelmente manchada – e os vendedores começam a deixar-lhe os duplicados das encomendas. Adriano apressa-se a transcrever as encomendas para o seu bloco de encomendas individual, para que possa devolver os duplicados. Está freneticamente a escrever, a conferir se tem tudo certo. Cerca de meia hora depois, o telefone toca, Adriano vira-se para trás, e pede a Matilde “podes puxar a chamada por favor?” Ele precisa de se concentrar em recuperar o trabalho, e apesar das suas colegas estarem a atender as suas chamadas, só conseguem atender uma de cada vez, e quando entra a terceira no grupo, o seu telefone toca também.

Outra meia hora passa, e Adriano já devolveu os duplicados aos seus vendedores, e está a registar as encomendas em sistema. Como os códigos são de dez algarismos, a sua mão direita parece funcionar autonomamente sobre o lado direito do teclado, apenas de números, registando cada artigo e cada linha. Nessa altura, o chefe de departamento aproxima-se:

- Eh pá! Ó Adriano, pareces o Stevie Wonder! Só te faltam os óculos escuros. Abanas a cabeça da esquerda para a direita, e com os dedos na tecla. 

Quem responde é Matilde, com uma gargalhada sonora (sua marca pessoal), enquanto aponta para o rosto de Adriano que parou a olhar.

- João! – diz ela ainda a rir – Ele está a mandar-te à merda com o olhar!

- Pois é! É melhor eu me ir embora, que ele não está para brincadeiras – responde ele a afastar-se também a rir.

Adriano retomou a tarefa sem qualquer outra reação.

Ao final da tarde, já com toda a situação ultrapassada, João telefona a Adriano e pede-lhe que vá ter com ele à sua secretária.

- Sim? Precisas de mim? – Pergunta Adriano

- Queres explicar o que se passou ali depois do almoço?

- Bom, houve um problema, mas está resolvido e ultrapassado.

- Sim, mas podes explicar? – João insiste

- Não é preciso. Está resolvido. Houve algum problema mais? – Adriano continua sem abrir o flanco, pensa

- Bom, está certo. Não queres explicar, eu fico com a ideia do que vi. – e prossegue – Eu sei quem foi que te estragou o trabalho da manhã.

- Isso...

- Não me interrompas por favor. 

- Desculpa.

- E também percebi que procuraste uma solução em vez de apontar culpados. E com isso, deste a volta à situação.

- Bom...

- Eu já te disse para não me interromperes – repete João com voz mais firme – Eu estou aqui a elogiar-te pela maneira como reagiste. Mas também quero te chamar a atenção, pois por vezes a tua ausência de reação pode levar as pessoas a pensar ao contrário do que tu julgas. Houve ali um momento em que eu, e provavelmente metade do departamento, pensou que tu ias apertar o pescoço à Matilde.

- Bom, eu não diria apertar o pescoço...

- Eu sei, e sei que tu percebes o que te estou a dizer. Tu és um tipo inteligente. Nada parvo. Às vezes fazes-te passar por parvo, mas disso tens muito pouco. O que te quero dizer é que além de pensares, tens que dizer alguma coisa sobre o que pensas, senão, as pessoas não vão saber lidar contigo. Por um lado, isso pode ser bom, mas por outro, vai te deixar mais só. Entendes?

- Acho que sim – responde Adriano, que já só queria sair

- Bom, vai lá, que tens a tua viagem diária para casa. Vais de carro?

- Sim, vou.

- OK. Senão oferecia-te boleia para a Praça de Espanha.

- Não, não é preciso. Está tudo bem.

À saída da empresa, Matilde está em pé à espera de Adriano. Ele passa por ela, e ela corre um pouco a acompanhá-lo a caminho do carro.

- Adriano? Podemos falar? – diz ela segurando-lhe o braço

- Sim. Diz. – responde ele a seco

- Desculpa por isto hoje...

- Sim, sim, tudo bem.

- Mas é que ...

- Olha, vamos lá – Adriano interrompe-a – Tu sabes que eu te adoro, não sabes? A tua companhia, falar contigo, o teu riso, como tu estás na vida. Adoro realmente.

- Sim...

- E sabes quantas vezes eu te avisei para não tomares café na minha mesa, não sabes? – Continua Adriano enquanto muda a mão com que segura o casaco, que continua sem vestir – Sabes que era precisamente isto que eu queria evitar que acontecesse, não sabes?

- Sim, sei. – responde Matilde com ar de cachorrinho triste

- E sabes que isto não se vai repetir, não sabes?

- Que... queres dizer com isso? – diz Matilde com voz trémula – tu pediste ao João para me despedir?

- Mas... tu estás boa da cabeça? – diz ele repreendendo-a – Eu estou a dizer que tu vais garantir que não volta a acontecer.

- Queres que eu me despeça?

- Porra! Mas é isso que eu estou a dizer?

- Não, mas...

- Mas o quê?

- Parece que...

- Epá... eu devo falar em chinês, ou devo saltar algumas frases – e enquanto segura o rosto de Matilde com as duas, continua – quando eu te digo que te adoro, é porque te adoro mesmo, e não te quero mal nenhum – pausa para dois beijos em cada face de Matilde – e quando te digo que tu vais garantir que não volta a acontecer é porque tu sabes o que eu te adoro, entendeste? E por isso, vais garantir que não volta a acontecer nada assim. Estamos entendidos?

Matilde apenas acena afirmativamente com a cabeça, e sorri, deixando escapar duas lágrimas.

Adriano virou costas, e seguiu em direção ao carro. Estava na hora de seguir caminho. Cerca de quarenta e cinco minutos estaciona à porta de casa. Sai do carro, abre a porta de casa, pousa o casaco aos pés da cama, e nota uma mancha junto ao bolso do peito. Parecia ser de café. Empurra o casaco para o chão e pensa que aquele já não voltará a ser usado. Eventualmente vai tentar colocar algum produto, mas se a mancha era do almoço ou de depois, agora à noite já pouco haveria a fazer. Sentou-se na cama, e olhou pela janela. Pensou em fechar o estore, mas a lua estava no horizonte.

Naquele momento, recordou como o dia começou. Tinha Teresa na sua cama. Ali mesmo. Pegou no telemóvel, procurou o número de Teresa na lista de contactos. Parou. Ficou a pensar, e a falar alto:

- Porra! Que merda fui eu fazer? Porque é que eu não lhe respondi logo que ficava com ela? Onde é que eu fiquei com a cabeça? A meio do rio?

Marcou no telemóvel para fazer a chamada. Deu um sinal de interrompido. Duas vezes, três vezes, quatro, cinco, seis, sete vezes. Parou de tentar. Entrou nas definições do telemóvel e mudou a opção de identificação do número, e voltou a ligar – desta vez em modo anónimo – para o número de Teresa. Ao primeiro toque, ouviu a sua voz. Ficou a olhar para o telemóvel. Porque ela havia bloqueado o seu número? Era a única explicação para o sinal de interrompido, ou de impossibilidade de fazer chamada, e agora “anónimo”, ela atendeu ao primeiro toque.

- Estou? Sim? Faça favor de dizer? – ouviu a voz de Teresa

Desligou. O mal estava feito, pensou.


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