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Pura ficção – A vida de Adriano – Parte X

 Duas horas depois de terem saído de Barbacena, Adriano continua a conduzir na maior velocidade que consegue controlar o carro. António não parou de chorar e de balbuciar palavras de culpa, que não deveria ter ido para fora quando o avô estava em exames no hospital. Que não lhe disseram que não seriam apenas exames. E agora, já não voltaria a falar com ele. E continuava a chorar. Adriano tentava acalmá-lo, enquanto procurava manter-se na estrada através do nevoeiro cerrado. Conduzia combatendo a falta de sono e de descanso, e numa velocidade não muito recomendável, mas sentia ser urgente deixar António em casa. Com o som da rádio a quebrar os períodos de silêncio onde apenas o choro de António se ouvia, por entre o ruído do motor do carro, a viagem parecia interminável. Para António que queria tanto chegar a casa, e para Adriano que se abstinha de se queixar de sono, de cansaço, ou do caminho feito através do nevoeiro. Provavelmente por ser uma manhã de sábado de verão, e quase nem...

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte IX

Era um grupo de sete mulheres, muito bonitas por sinal, e entre elas Paloma ao centro, sorrindo e chamando por António, ali junto ao balcão do bar. Adriano foi rodeado pelas amigas de Paloma, e atrás delas António esgueirava-se para se aproximar de Paloma. Ele nem conseguiu fixar o nome delas, mas ficou a responder às perguntas delas. De onde vinham, o que faziam, como é que lhes passou pela cabeça vir da capital de Portugal para Badajoz, para elas um sítio provinciano. Ele manteve-se sereno e até um pouco agradado por tanta companhia feminina, mas não demorou a perceber, ou a pensar, que tal atenção se devia à proteção de Paloma. Para todos os efeitos, elas são ciganas e têm a família para respeitar e o romance – sim, estava assumido ser um romance – entre António e Paloma para esconder. Por ali ficaram animadas, com Adriano algo surpreendido por se sentir no centro das atenções. Conseguiu perceber que uma delas, a que mais falava com ele, parecia liderar o grupo. Por idade, talvez, p...

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte VIII

Três meses depois, Adriano sentia-se numa espiral invertida. No trabalho, as coisas estavam a compor-se para uma eventual promoção, o que era um dos seus objetivos. Pessoalmente, optara por ficar em casa todo o tempo em que não estava a caminho ou de regresso do trabalho. Fins-de-semana sem dizer palavra, a atender chamadas de amigos de forma monossilábica, desinteressada, e sem filtro para mostrar aborrecimento a qualquer proposta de “sair à noite”. Amigos a querer apresentar amigas era abordagem suficiente para respostas mais rudes. Adriano estava em modo “intratável”. Um dos seus amigos, colega de trabalho de outro departamento, com quem já se tinha aventurado em saídas noturnas, fins-de-semana agitados em Espanha – sim, Espanha, porque não? – António é dos que mais tem insistido com Adriano. Mais para não ter de o aturar do que por querer sair, Adriano acedeu a se encontrar com António num bar perto de casa dele, na Amadora. A ideia era jantar e tomar um copo depois, e regressar a ...

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte VII

Adriano ficou à porta do trabalho, dentro do carro, a pensar sobre o que acabara de acontecer. Já era o terceiro fim de semana passado com Teresa. Três noites juntos a cada fim de semana, e para ele parecia que se iniciava uma rotina. Mas esta manhã, o ritual de despedida entre eles foi ensombrado pelo seu silêncio. Ele ainda não percebeu se foi falta de reação, falta de saber o que querer, mas o que sabe é que lhe pareceu definitivo. E foi. Desde essa altura, apenas se viriam a encontrar em duas ocasiões e sempre num âmbito social. Uma vez numa exposição de um pintor que ambos já conheciam antes, e outra vez, num encontro casual na rua, no centro da cidade, onde ela apenas lhe correspondeu com um sorriso e seguiu caminho. No serão anterior, uma noite de domingo que caía o fresco e o vento se fazia sentir na rua, e que os fez abrigarem-se em casa mais cedo do que antes. Adriano sentiu Teresa pensativa. - Está tudo bem? – pergunta Adriano com ar preocupado - Sim, está. - Não me parece. ...

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte VI

 “ Amante Meu amor, esses teus dedos, Cariciam com mestria. Da língua, guardo os segredos, É toda sabedoria. Amante melhor não há, Tu és pra mim meu eleito. Tens meu modo e tens meu jeito, Outro não te igualará. Fomos feitos um pró outro, Eu, plo menos, penso assim. Tu, bebes pelo meu corpo, Eu, nem sequer caibo em mim. Para o nosso grande amor,  Não há adjetivação. É tão lindo, tem valor, Vive de imaginação.” ** Enquanto Teresa lia um trecho do livro que lhe acabara de oferecer, Adriano observava-a atentamente. Os detalhes do seu rosto, a cor dos seus olhos, a forma como afastava o cabelo para trás da orelha, e só lhe ocorria pensar que estar ao lado de uma deusa. Horas antes, Teresa havia telefonado a Adriano recordando que tinham ficado sem tomar o café que haviam combinado na inauguração da exposição, e que já tinham passado três meses... - Três meses? – exclamou Adriano - Sim – continuou Teresa – e parece que andas a tentar fugir de mim... - Eu? Fugir? – Adriano mudou o t...

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte V

No rádio do carro estava a dar o sinal horário das 2 da manhã, quando Adriano diz a Gabriela que seria melhor que ela o deixasse na estação dos comboios, e ele seguiria para Lisboa. Ela, com os olhos lacrimejantes, desorientada e frustrada por estar há praticamente duas horas a conduzir às voltas, sem saber para onde ir. Adriano procurava manter a calma, e estava resignado a que esta seria uma noite perdida, e que teria de “secar” à espera de transporte para ir para casa. A primeira “camioneta” saía da Praça de Espanha às 06h da manhã, pelo que a pressa para ir para Lisboa era relativa. Teria de esperar de qualquer das formas, e pelo menos, aliviava Gabriela de todo este stress.  Ela reclamava consigo própria da situação. Condutora inexperiente, não conseguiu seguir os carros da comitiva depois do jantar, e ainda por cima, não se lembrava do nome do sítio para onde tinham de ir. A certa altura, Adriano vê um homem na rua a passear dois cães, e diz para Gabriela parar junto dele. Ab...

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte IV

Adriano assistiu com deslumbramento e atenção ao evento, e em especial a Teresa a declamar o texto do livro que estava a ser apresentado. Sentiu-se vaidoso por estar num meio cultural evoluído, por fazer parte, por breves momentos que fossem, de um meio assim. Ouvia as pessoas a conversar sobre temas de música, de livros, debatendo citações, e além de vaidade, também o fazia sentir na sua dimensão. Pequenino. Pequeno de conhecimento, e de saber. A maioria daquelas pessoas tinham estudado, lido e relido, sobre coisas que ele não teve oportunidade, e nem sequer pensou em procurar. Naquela hora, Adriano pensou estar a espreitar à janela de todo um mundo novo, e diferente. Sozinho, segurando um copo de sumo de laranja, olhando a sala em redor, vê-se interrompido por Teresa que o assalta: - Então? Gostaste?  - Oh! Adorei... ainda estou a processar tudo... - Ainda bem... vem cá – disse enquanto o puxava para uma zona do salão do evento onde estavam menos pessoas – que vais fazer agora? -...