Pura ficção – A vida de Adriano – Parte VIII

Três meses depois, Adriano sentia-se numa espiral invertida. No trabalho, as coisas estavam a compor-se para uma eventual promoção, o que era um dos seus objetivos. Pessoalmente, optara por ficar em casa todo o tempo em que não estava a caminho ou de regresso do trabalho. Fins-de-semana sem dizer palavra, a atender chamadas de amigos de forma monossilábica, desinteressada, e sem filtro para mostrar aborrecimento a qualquer proposta de “sair à noite”. Amigos a querer apresentar amigas era abordagem suficiente para respostas mais rudes. Adriano estava em modo “intratável”.

Um dos seus amigos, colega de trabalho de outro departamento, com quem já se tinha aventurado em saídas noturnas, fins-de-semana agitados em Espanha – sim, Espanha, porque não? – António é dos que mais tem insistido com Adriano. Mais para não ter de o aturar do que por querer sair, Adriano acedeu a se encontrar com António num bar perto de casa dele, na Amadora. A ideia era jantar e tomar um copo depois, e regressar a casa antes da meia-noite, visto que o dia seguinte era sexta-feira e havia que estar em condições de trabalhar...

Cerca das 20h Adriano encontra um lugar para estacionar perto do parque central da Amadora. Depois de fechar o carro, caminha pela rua em direção ao parque. Vê António do outro lado da rua a chamá-lo com um assobio e um aceno vigoroso. Atravessa a rua, e ao chegar junto de António cumprimentam-se:

- Estás a aterrar helicópteros? – diz Adriano em tom sarcástico

- Sim, estava a ver se a tua cabeça aterra - responde António de pronto

- A minha cabeça está aqui no pescoço

- Não parece. Estás noutro sítio de certeza.

- Estou nada. Estou aqui.

- “Ya”, mas parece que estás chateado com o mundo, e o mundo não tem culpa, nem eu, já falo no assunto.

- Não é nada disso.

- Eu sei do que precisas. ‘Bora, mas é jantar e depois tomamos um copo. Tens de espairecer.

- Epá... só não me apetece aturar pessoas. E não me apetece falar.

- Tudo bem que não te apeteça falar, mas não precisas de andar aos coices.

- Aos coices?

- Sim, aos coices. Ainda ontem, a Andreia...

- Andreia? Quem?

- A estagiária que está lá no teu departamento...

- Ah! Sim, o que tem ela?

- Então a miúda escreve o número de telefone dela no teu bloco e tu ralhas com ela por te estar a estragar os apontamentos? Estás parvo ou quê?

- Ahn? Eu fiz o quê?

- Nem te lembras?

- O quê?

- Foste ralhar com ela porque ela te escreveu no bloco da secretária?!

- Ralhei? Bom... eu costumo ter aquilo limpo para quando preciso de...

- Quando precisas de quê pá? Tu nem usas aquilo senão para pôr as encomendas em cima! Mas não te preocupes que eu já tratei do assunto – diz António com ar de gozo

- Trataste como? – pergunta Adriano olhando em redor, não fosse António ter chamado alguém para se juntar a eles

- Não te preocupes... – repetiu António – que eu fiquei com o telefone dela quando a fui consolar ali ao corredor... 

António sempre se gabou de ser um engatatão, e Adriano já o testemunhara naquelas viagens a Espanha. Era rara a noite em que não andava enrolado com alguém. Cuidadoso com a sua imagem, sempre de fato, ou roupa de marca vistosa, apesar de estatura algo baixa – dava pelo ombro a Adriano – António desfruta de um êxito peculiar junto dos elementos do sexo oposto. Entre algumas que lhe ligavam amiúde e ele desprezava, outras que ele rondava, as coisas pareciam dar sempre algum tipo de resultado. Adriano, por outro lado, mantinha uma postura mais reservada nesse sentido. Divertia-se, bebia sem perder o controlo, dançava até suar, ria, trocava piadas com António durante a noite, e algumas vezes ficava à espera dele, após uma ou outra escapadela.

- Adriano, man! – recomeça António a conversa já sentados à mesa do restaurante – este fim de semana tens que vir comigo a Badajoz...

- Tenho? – responde Adriano com feição de que não apreciou a proposta

- Tens mesmo – continua António – lembras-te da Paloma?

- A cigana bonita?

- Ela mesmo!

- Então? No que é que tu te foste meter?

- Cala-te com isso. Lembras-te que nos conhecemos quando fomos a Badajoz no mês passado...

- Sim, lembro-me. E também me lembro dos primos dela andaram à procura do português que andava atrás da prima deles...

- Nada disso. Eles só cuidam dela.

- E tu queres o quê dela?

- É que nós trocámos de números de telefone. Ou melhor, eu dei-lhe o meu, e disse-lhe para ela me ligar.

- E ela ligou-te, foi?

- Foi... – disse António sorrindo – só que...

- Só que o quê?

- Epá... nós fartamo-nos de falar... conversamos mesmo muito. Ela é top. Espetacular mesmo. Muito boa onda. Claro que tem aquela cena da família, que não quer que ela se dê com alguém que não seja cigano...

- Isso não é assim coisa de desprezar, digo eu.

- Sim, mas ela é tão fixe. Ficámos de nos encontrar este fim de semana, e tu tens que vir comigo.

- Eu tenho? Então, mas tu metes-te nas coisas e agora eu é que vou contigo?

- Sim, vamos na sexta-feira, jantamos ali em Barbacena e depois seguimos lá para o bar onde já combinei com ela, para podermos falar mais à vontade.

- Espera lá... então e dormimos na casa dos teus avós? 

- Sim, eles estão cá na casa dos meus pais, porque o meu avô tem que ir ao hospital fazer uma cena, e vão cá ficar uns dias. E temos lá a casa por nossa conta.

- Bom, assumindo que eu vou...

- Fixe! Eu sabia que podia contar contigo!

- Então hoje não dá para ir para a 24 de Julho. Tenho de arrumar roupa para levar, já que só voltamos no Domingo, né?

- Ah sim... eu também não arranjei nada ainda

- Não me digas que se eu dissesse que não ia, tu ias deixar a rapariga pendurada.

- Logo via como fazia... – disse António rindo enquanto terminava o último pedaço do bitoque pediu para jantar.

Despediram-se pouco depois, ao sair do restaurante, e Adriano meteu-se à estrada a caminho de casa, onde arrumou alguma roupa num saco de viagem, e deixou aos pés da cama, para levar logo de manhã para o carro. No dia seguinte, António deixou o carro em casa e pediu boleia a um colega para o trabalho, pois dali seguiriam no carro de Adriano para o fim de semana.

Na altura, a ligação por autoestrada ainda não estava completa até Elvas, mas foram por essa via até Estremoz e dali alcançaram Barbacena, culminando a viagem de duas horas e meia, desde Lisboa. Passaram na casa dos avós de António para deixar os sacos de viagem, e Adriano tirou a gravata e abriu a camisa. António mudou de roupa, e surgiu já de ganga e com a sua camisa branca que me permitia ver o fio dourado ao pescoço. Adriano abanou a cabeça, e perguntou:

- Podemos ir jantar? 

- Espera... – António voltou ao quarto de onde se fez ouvir um spray – agora já – reapareceu sorrindo

- Vamos ao Adro?

- Vamos lá que ainda nos devem servir...

Como já eram quase nove da noite, tinham a dúvida sobre se chegariam a tempo para jantar, mas logo que estacionaram em frente ao restaurante perceberam que ainda havia muita gente dentro, e rapidamente entraram. António cumprimentou o dono que estava a controlar à entrada onde sentar os clientes, e entregava as ementas para irem escolhendo. Anunciou que já não havia arroz de pato, com António a gracejar que o “bichou escapou”, e já sentados à mesa, retomam a conversa:

- Então a que horas combinaste com a Paloma?

- À uma da manhã, hora deles, à porta daquele bar que fica na esquina da rotunda.

- Está bem. Estamos com tempo.

- Então hoje pegaste-te com o Teixeira Cravo?

- Eu não.

- Mas ele passou por mim no corredor a falar cobras e lagartos de ti.

- Foi? Então fiz bem o meu trabalho. Ele é que não fez o dele.

- Imaginei que o tinhas picado.

- Eu não piquei, mas se para dar o meu trabalho feito dependo de ele fazer o dele, e ele não o faz, temos um problema para resolver. E eu fui resolvê-lo. Não é por ele ser lunático que não deixo de o fazer.

- As tuas colegas é que te mandam sempre falar com ele, para lhe dar a volta.

- Não é a falar de futebol constantemente que as coisas se fazem. Ele também é capaz de falar de outras coisas. Não deixa de ser doido. Um tipo que consegue convencer a Dª Rosa da papelaria do supermercado a emprestar-lhe o jornal “A Bola” para ele ler de manhã e devolver à hora do almoço...

- É mesmo – António ri-se – e quando ele entra nos departamentos comerciais com os papéis na mão e com aquele tique de esticar o pescoço com os óculos na ponta do nariz...

- É cromo. Deixa-o... – Adriano promove uma mudança de assunto – Sobre a Paloma... quando falaste com ela na última vez?

- Hoje ao almoço. Ligou-me de outro número.

- Sim? Outro número?

- Parece que é outro número de casa.

- Outro número? Como assim? Ela tem dois números de telefone em casa?

- Não. Tem quatro.

- Desculpa? – Adriano ficou boquiaberto

- A casa dela é grande. Precisam de vários telefones.

- Assim tão grande?

- É mesmo. Aquilo ocupa quase um quarteirão. Nem sei se não é um palacete.

- Bem, malta pobrezinha, portanto.

Com o aproximar da hora marcada, saíram do restaurante e Adriano conduziu até estacionar relativamente perto do bar onde António e Paloma combinaram se encontrar. Apesar de terem chegado dez minutos antes, António disse para entrarem e aguardarem dentro, mas ao entrarem ficaram surpreendidos. 

Paloma já ali estava, e estava acompanhada.


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