Pura ficção – A vida de Adriano – Parte II
Foi mais um fim de semana de azáfama no monte. Adriano teve a visita da sua irmã, cunhado e dois sobrinhos, e trouxeram mais um casal amigo. Ficaram na casa dos tios, e de seu pai, que fica um pouco mais abaixo no monte, mas Adriano sempre se dispôs a acompanhar e acaba por, ora ficar a tomar conta dos sobrinhos, ora a preparar um churrasco para uma patuscada de despedida. Assim foi desta vez. O jantar de domingo começou ainda não eram 19h, mas entre aperitivos, petiscos e o jantar propriamente dito, fizeram-se as 21h e a comitiva partiu de regresso aos arredores da capital.
Adriano, depois de arrumar as coisas, fechou a casa dos tios/pai, e dirigiu-se à sua, onde se sentou no alpendre, no cadeirão onde habitualmente fica quando ainda não quer se recolher, e opta por desfrutar do céu estrelado, sem mácula de iluminação artificial. Ali perde-se tantas vezes, em pensamentos...
Recorda quando trabalhava no atendimento de clientes de uma multinacional. Vendia eletrodomésticos. Na sequência do estágio a que se candidatou, e cumpriu, no âmbito de um curso técnico, acabou por ficar na empresa onde estagiou. Apesar de venderem a empresas apenas, lojas, e grossistas, vendiam a particulares desde que trabalhassem nas empresas do grupo em Portugal. Com isso, Adriano acaba por falar com imensas pessoas diferentes a título de quererem uma máquina de lavar ou um frigorífico. Falar ao telefone era, à data que começou o seu estágio, algo que lhe causava autêntica alergia. Mas com o tempo, logrou dominar a função como uma arte. Sempre que havia um cliente aos gritos ao telefone, até a telefonista da empresa tinha ordem para lhe passar a chamada. Adriano tinha como “imagem de marca” a sua calma, e ponderação, nestes e em quaisquer outros contactos. O seu timbre de voz era baixo, e usava-o com cuidado, procurando pensar as palavras que proferia, pois na sua curta experiência na função, já tinha cometido erros com os quais aprendeu rapidamente. Já estava num estado em que se saía quase sempre bem. Encontrava sempre a palavra certa para acalmar o cliente em fúria, escolhia quando podia colocar uma piada, ou era preferível manter-se lacónico. Os clientes dos vendedores que lhe estavam atribuídos já o conheciam, tinham-no em boa conta nessa medida. Uma das peculiaridades que o divertia, era ouvir os clientes tratá-lo por senhor, ou falando-lhe como se fosse alguém de meia-idade, quando na realidade não passava de um “puto” de 24 anos. Já fazia aquilo há três anos, é certo, mas não deixava de ser um miúdo.
Num dia, a secretária de um diretor de outro departamento foi falar com ele, pedindo-lhe que atendesse uma amiga. Algo a contragosto, ele aceitou. A contragosto porque ele não gostava muito dela, para ser sincero. Sentia-lhe vaidade e snobismo, quem sabe se devesse à função, que sempre funcionava naquela empresa como uma barreira ou um filtro para alcançar a pessoa mais importante do departamento, mas isso causava-lhe alguma irritação. Nunca o demonstrou, e até porque era sua função atender os colegas, ele acedeu a abrir a exceção de atender uma pessoa amiga. Para ele, era mais uma desculpa por não ter que aturar aquela secretária, e pensar que qualquer outra pessoa seria melhor de aturar.
Do outro lado da linha, surge uma voz feminina forte e colocada, a dar as boas tardes. Adriano ficou agradavelmente surpreendido – gostou da voz, pensou – e encetou o seu habitual atendimento. Entre perceber o que a cliente precisava, e a explicar as opções que tinha disponíveis, surge a secretária à sua frente fazendo sinais. Ele pede licença para interromper a conversa, e ouve o que ela tem para dizer:
- fala-lhe da “lista B”!
A “lista B” eram os produtos que tinham estado em exposição, ou que tinham sido devolvidos e já não se encontravam em condições de venda como novos, e que a empresa os vendia aos empregados a um preço inferior, bastante mais atrativo.
- Mas vai em seu nome, então – disse Adriano
- Sim, sim, diz-lhe isso – respondeu ela afastando-se de seguida
Adriano retomou a conversa, e a sua interlocutora lançou uma gargalhada, enquanto dizia:
- Já lhe está a dar música ela?
- Música?
- Sim! A pedir favor que não devia pedir, e a falar como se fosse uma criancinha...
Adriano pensou e optou por...
- Bom, chamar aqueles guinchos ziguezagueantes música parece-me que seja esticar um pouco a corda.
Do outro lado, explodiu nova gargalhada.
- É que é mesmo aos ziguezagues!
- E em termos de música, não é bem a minha preferência – prosseguiu Adriano
Daqui, seguiram-se quase trinta minutos de conversa, em que Adriano se distraiu de uma das suas regras de atendimento – se em 5 minutos não é para fechar um assunto, há que rematar e seguir para o assunto seguinte – e onde um e outro trocavam nomes de artistas e de músicas, até que a certa altura ela lhe começou a falar de fados – algo que não apreciava mesmo – e a perguntar se conhecia este ou aquele, ao mesmo que – para seu espanto – ela do outro lado da linha lhe cantava alguns dos fados. A conversa prosseguiu por mais quinze minutos até que Adriano teve que começar a fechar o assunto:
- Bom, voltando ao que nos trouxe a esta conversa, temos um micro-ondas (disse a referência e as características principais) da “lista B”, e um frigorífico novo de 170cm de altura, não é assim?
- É sim...
- Eu tenho de lhe pedir desculpas, mas não anotei o seu nome quando começámos a falar, e agora preciso que me diga a morada de entrega...
- Acho que já nos podemos tratar por “tu”, já que falámos mais tempo a título pessoal que profissional
- ok – Adriano aceitou – podes me dar o teu nome e a tua morada para tratar da entrega por favor?
- Teresa Beságue – e de seguida deu-lhe a morada completa
- Já te dou os dados para pagamento...
- A Kika trata disso e eu acerto contas com ela!
- Kika?! – Adriano ficou atrapalhado por um momento, mas depois de pensar que Francisca Antunes era o nome da secretária do outro diretor, lá caiu a moeda – ah sim...
- Para ti, deve ser Francisca, não é?
- Sim...
- Eu sabia – disse rindo-se.
- Bom, qualquer coisa que precises, é só ligar – disse Adriano em jeito de despedida
- Ligarei, mas não prometo que não te cante de novo – riu-se, e desligou a chamada.
Adriano ficou um momento a olhar para o telefone antes de pousar o auscultador. A Dª Joaquina – sua colega sentada dois metros à sua frente, de forma perpendicular à sua secretária:
- Isso é que foi uma conversa para aí...
Adriano sorriu, e prosseguiu nos seus afazeres.
... tbc
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