Pura ficção – A vida de Adriano – Parte X

 Duas horas depois de terem saído de Barbacena, Adriano continua a conduzir na maior velocidade que consegue controlar o carro. António não parou de chorar e de balbuciar palavras de culpa, que não deveria ter ido para fora quando o avô estava em exames no hospital. Que não lhe disseram que não seriam apenas exames. E agora, já não voltaria a falar com ele. E continuava a chorar. Adriano tentava acalmá-lo, enquanto procurava manter-se na estrada através do nevoeiro cerrado. Conduzia combatendo a falta de sono e de descanso, e numa velocidade não muito recomendável, mas sentia ser urgente deixar António em casa.

Com o som da rádio a quebrar os períodos de silêncio onde apenas o choro de António se ouvia, por entre o ruído do motor do carro, a viagem parecia interminável. Para António que queria tanto chegar a casa, e para Adriano que se abstinha de se queixar de sono, de cansaço, ou do caminho feito através do nevoeiro. Provavelmente por ser uma manhã de sábado de verão, e quase nem encontravam outras viaturas pelo caminho. Nem camiões, nem camionetas, quanto mais carros ou motas. Quilómetros atrás de quilómetros a sós na estrada. Adriano pensava estar a viver um poema bizarro.

Faltavam 20 minutos para as nove da manhã, quando Adriano deixou António à porta de casa. Despediram-se com um abraço, e Adriano sentou-se no carro, suspirando. Sentiu fome. Pensou ser estranho, mas depois refletiu que apenas tinha jantado na noite anterior, e tomado uns copos ao longo de noite, e já tinha conduzido quase três horas sem parar, e com um nível de atenção que o deixava esgotado. Havia que regressar a casa, e ainda são alguns quilómetros até sua casa na Quinta do Conde, mas por outro lado, aquele aperto no estômago reclamava outro destino. Pensou onde iria aquela hora numa manhã de sábado.

Dez minutos depois, Adriano estaciona o carro em Belém. Pensou ir comer um croissant e acompanhar com um galão aos Pastéis de Belém. Por nenhuma razão em especial, senão a de que, quando estudava ali perto num curso que lhe deu emprego, costumava ir uma vez por semana ali tomar o pequeno-almoço. Enquanto estava ali sentado, tanto enquanto esperava que lhe trouxessem o seu pedido, como enquanto comia, observava as pessoas que ali entravam. Estrangeiros, na maioria, de visita ao Mosteiro dos Jerónimos, em excursões organizadas em autocarros. Pensou estar numa montra, que todo aquele lugar agora lhe parecia. Terminou de comer, bebeu o resto do galão, e levantou-se para ir pagar à caixa, abandonando o espaço pouco depois. Sentou-se ao volante, respirou fundo, e iniciou a viagem para casa. Eram dez da manhã, quando após entrar em casa, deixar cair a mochila com a roupa que levou para o fim de semana no corredor, despiu-se, ficou em roupa interior e atirou-se para cima da cama, adormecendo pouco depois. 

O telemóvel a tocar serve de despertador a Adriano. É uma chamada. Acorda estremunhado e confuso. Agarra o relógio de pulso que tem na mesa de cabeceira para ver as horas, e ainda com o telemóvel a tocar, pensa se terá dormido demais, ou se mal dormiu, pois, o relógio marca dez e quarenta e cinco. Como pelo estore da janela, entra luz do sol, pensa que dormiu pouco. Atende finalmente o telemóvel, e do outro lado, uma voz feminina a chorar, chama por ele:

- Adriano! Por favor...

- Estou?

- Adriano?

- Sim?

- É a Joana...

- Ah! Olá...

Adriano olhou finalmente para o visor do telemóvel, e viu que se tratava de Joana, namorada do seu amigo Zé, com quem por vezes saíra à noite há alguns meses. Ele falava bem com ambos, mas Zé sempre foi algo jocoso com Adriano, e sempre o menosprezava por andar sempre sozinho. Chegou algumas vezes a ir à praia com Zé e outro grupo de amigos. A pedido de alguns desses amigos, Adriano optou por não responder mais às provocações que Zé lhe dirigia, pois na única vez que o fez, gerou algum azedume, e Adriano no seu sarcasmo, desligando o filtro, acabava por exagerar nas respostas a Zé, e ao optar por deixar de responder para não causar mau estar no grupo, acabou por criar um equilíbrio entre ambos. No fundo era uma amizade de coincidências de pessoas em comum e pouco mais. Algumas vezes acabou a dirimir alguns diferendos e desaguisados dele com Joana. Desta vez, pareceu ser algo mais definitivo, e Joana resolveu ligar a Adriano que sempre a ouviu e se mostrou compreensivo. Na realidade, a Adriano sempre incomodou que Zé comentasse e admirasse de forma ostensiva outras mulheres na presença da sua namorada. Aquela atitude de tentar rebaixar quem com ele estava para se sentir melhor consigo mesmo – diagnóstico que ele uma vez lhe fez numa conversa franca – era algo que o incomodava, e que ele até tinha tido o cuidado de lhe chamar a atenção mais do que uma vez.

- Preciso falar com alguém... – continuou Joana – não aguento mais isto

- Está bem. Queres combinar alguma coisa mais logo? – Adriano sentou-se na cama

- Eu tenho de sair daqui agora.

- Agora?

- Sim... não te importas...?

- Bom – Adriano volta a pegar no relógio de pulso – Acho que consigo estar aí daqui a uma hora ou assim...

- Eu espero por ti lá em baixo no café ao pé de minha casa, pode ser?

- Está bem. 

- Eu não vou levar o telemóvel. Mas fico a ver quando chegares e vou ter contigo ao carro.

- Está bem, tudo bem. 

- Até já. Beijinho.

- Até já.

Desligaram, e Adriano suspirou profundamente. Nem sequer chegou a dormir uma hora. Pensou que este fim de semana estaria destinado a não lhe dar um mínimo de descanso. Levantou-se e foi tomar um duche, e vestiu umas calças de ganga, calçou os seus ténis preferidos, vestiu uma t-shirt, e apanhou as chaves de casa, do carro e na carteira e dirigiu-se para o carro, iniciando a viagem de seguida. Joana vive no Forte da Casa e Adriano não esperava apanhar trânsito, que de manhã era sempre mais intenso em direção a sul, e na realidade até foi uma viagem tranquila. Assim que se aproximou do prédio onde Joana reside, avistou-a na esplanada da pastelaria instalada no rés-do-chão. Ela também o viu e levantou-se de pronto, e avançou rapidamente para entrar no carro.

- Leva-me daqui por favor – disse ela assim que entrou no carro

- Para onde?

- Não me interessa.

- Está bem. – diz Adriano enquanto arranca rumo à Nacional 10, onde vira em direção a Lisboa – vamos sair daqui primeiro.

Alguns quilómetros depois, Adriano aproveita a escapatória de uma paragem de transportes públicos, para encostar o carro, e depois parar, pergunta:

- Vamos lá... o que é se passou?

- Estou farta disto – responde Joana a chorar, enquanto se agarra a Adriano procurando abraçá-lo

- Sim, eu percebi isso. Mas o que se passou? – voltou a insistir Adriano

- Leva-me daqui – responde Joana que parece estar muito nervosa

- Onde queres ir? O que queres fazer?

- Ver o mar. Pode ser?

Perante esta resposta, e sentindo Joana bastante nervosa, segura-lhe a mão depois de arrancar e entrar na via rápida junto ao rio, enquanto decide seguir para um local que ele bem conhece, e de onde Joana possa ver o mar. Cabo Espichel, pensou, e ao entrar na Ponte Vasco da Gama rumo a sul, imaginou o caminho que deveria fazer, pois a construção da autoestrada até às portagens de Coina na A2 ainda não estava terminada. O caminho era sinuoso, mas conhece-o bem pois é o que usa quando vem trabalhar perto da Gare do Oriente. À medida que a viagem decorre, Joana não larga a mão direita de Adriano exceto quando ele precisa de usar as mudanças, momento em que ela o agarra no braço, encostando a cabeça nele.

A certa altura, numa estrada secundária de ligação da Moita para a Penalva, Adriano depara-se com um carro parado no meio de um cruzamento. Encosta dizendo a Joana para ficar dentro do carro, e sai do carro.

- Bom dia! Está tudo bem? – Pergunta Adriano quando chega junto da janela do condutor

- Sim... quer dizer, não – responde o condutor, um rapaz jovem visivelmente atrapalhado, e olhando para o lado direito, segura a mão da rapariga que o acompanha – o carro parou, e não percebo o que se passa

- Okei... mas estás parado no meio do cruzamento e assim é perigoso porque eu mal te vi quando estava a chegar aqui – e reparando no painel de instrumento do carro – e pelo que vejo tens aí essa luz vermelha que diz que algo se passa com o motor.

- Eu não tenho aqui o livro do carro para perceber o que é – responde o rapaz

- Põe o carro em ponto morto. Vamos tentar encostar ali naquela berma. – ordena Adriano para tentar encontrar uma solução

Entre ambos conseguem empurrar o carro para que atravesse o cruzamento, e logram encostá-lo à berma, evitando perigo maior, e Adriano depois de abrir a bagageira, encontra o triangulo de sinalização e coloca-o alguns metros atrás do carro. Dirige-se depois de novo ao rapaz que já se encontrava fora do carro, abraçado à rapariga.

- Tens telemóvel? – pergunta-lhe Adriano

- Tenho – responde o rapaz

- Então, e tens o número do seguro?

- Não

- Vê lá no porta-luvas...

- O carro é do meu pai, e ele emprestou-me...

- Emprestou-te?

- Sim, sim, é verdade

- Então e queres ligar ao teu pai para te vir ajudar, ou ligas ao seguro a pedir reboque, ou como queres fazer?

- Eu ligo ao meu pai então...

 Adriano aguarda que o rapaz termine a conversa ao telefone, mas ele faz-lhe sinal para Adriano falar também ao telefone.

- Sim? – pergunta Adriano

- Meu caro amigo, tenho de lhe agradecer por ajudar o meu filho.

- Ora essa, não foi nada

- Foi sim senhor. Foi o único que passou por aí e que ajudou o meu rapaz. Eu já aí vou ter e falamos, que eu quero lhe agradecer pessoalmente.

- Não se preocupe. Se o senhor já aqui vem, eles estão bem, eu vou me por ao caminho.

- Então, quando vier aqui à Moita ligue-me aqui para este número e eu pago-lhe um almoço.

- Está bem, está bem. Eu peço o número ao seu filho – responde Adriano para tranquilizar o pai do rapaz

No entanto, Adriano despede-se rapidamente do casal e regressa ao carro, onde encontra Joana a sorrir:

- Tu realmente és um cavaleiro alado!

- Eu sou o quê?

- Um cavaleiro alado!

- Por alma de quem?

- Vieste me resgatar, e agora até ajudas um casal em apuros!

- Então, estavam ali no meio da estrada. Aquilo era um perigo. Eu só não lhes acertei porque vinha devagar depois da curva, mas se viesse mais depressa não sei não...

Ela voltou a encostar-se ao braço dele, pedindo que a levasse onde ele pensara. Adriano arrancou e rumou até ao Cabo Espichel, onde chegaram após mais trinta minutos de viagem. Adriano conseguiu pôr música a tocar para tentar espairecer o ambiente. Após estacionar o carro, saíram e foram a caminhar ultrapassando o Santuário até alcançarem a cerca de proteção de madeira, à beira do precipício.

- Então o que se passou? – Pergunta Adriano com voz calma

- Acabou tudo – responde Joana de novo com voz trémula – Acabou tudo entre mim e o Zé.


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