Pura ficção – A vida de Adriano – Parte V
No rádio do carro estava a dar o sinal horário das 2 da manhã, quando Adriano diz a Gabriela que seria melhor que ela o deixasse na estação dos comboios, e ele seguiria para Lisboa. Ela, com os olhos lacrimejantes, desorientada e frustrada por estar há praticamente duas horas a conduzir às voltas, sem saber para onde ir. Adriano procurava manter a calma, e estava resignado a que esta seria uma noite perdida, e que teria de “secar” à espera de transporte para ir para casa. A primeira “camioneta” saía da Praça de Espanha às 06h da manhã, pelo que a pressa para ir para Lisboa era relativa. Teria de esperar de qualquer das formas, e pelo menos, aliviava Gabriela de todo este stress.
Ela reclamava consigo própria da situação. Condutora inexperiente, não conseguiu seguir os carros da comitiva depois do jantar, e ainda por cima, não se lembrava do nome do sítio para onde tinham de ir. A certa altura, Adriano vê um homem na rua a passear dois cães, e diz para Gabriela parar junto dele. Abre a janela e pergunta-lhe:
- Amigo! Desculpe! Boa noite!
- Boa noite... – responde o homem enquanto segura os cães pela respetiva trela
- Não sei se nos pode ajudar...- continua Adriano a falar com a cabeça de fora da janela do carro – mas nós estamos à procura de uma discoteca aqui perto...
- E não sabem como se chama?
- Bom... saber não sabemos – Adriano inclina a cabeça e sorri forçadamente – mas tem um nome esquisito, fora de vulgar...
- Esquisito? – diz o homem com ar pensativo – talvez “Rasputine”?
- É isso mesmo!! – grita Gabriela eufórica
- Sim, pode nos indicar o caminho por favor? – prossegue Adriano
O homem começa então a explicar o caminho. Não estavam longe. Seriam uns dois quarteirões, e num recanto da rua, na entrada da zona comercial na base dos prédios, ali encontrariam a discoteca “Rasputine”.
Poucos minutos depois, Gabriela estacionava o carro, subindo o passeio, mas encolhendo os ombros para tal preciosismo. Saíram do carro e caminhavam para a porta da discoteca que viram fechada. Olharam um para o outro, mas como ouviram ruído, tocaram à campainha, que fez a porta abrir e um homem negro de porte alto e musculado surgiu olhando para os dois:
- Gabriela e Adriano? – questionou apontando para ela e para ele
- Sim! – responderam em coro
- Estão ali num velório à vossa espera – disse o homem sorrindo e dando-lhes passagem para entrarem
A música tocava alto, e não muito longe da entrada vislumbraram uma mesa-redonda larga, ladeada por um sofá, e algumas cadeiras. Desse sofá saltaram Paula e Nuno que estava com os olhos vermelhos, para os abraçar.
- Ele já se fartou de chorar por vossa causa – gritou Paula para se fazer ouvir com o som da música
- Mas porquê? – perguntou Adriano para gracejar – Só nos atrasámos um bocado...
O resto grupo rodeou rapidamente o par recém-chegado, cumprimentando-os, e comentando que ninguém estava a celebrar coisa alguma, tal era a preocupação que Nuno demonstrara. Estava a sentir-se culpado por ter convencido Adriano a vir de longe e acabava por ficar “perdido”, e abandonado. Apesar de Adriano tentar explicar que apenas se tinham perdido, sim, mas com isso atrasado a chegar, e que afinal, até teria uma história para contar, e estava tudo bem, Nuno não se demovia de o agarrar pelo braço, ou de o abraçar. Adriano recordou que Nuno à saída do jantar já estaria com “um grão na asa”, e se estava sob este “stress” certamente teria bebido mais, e daí toda aquela “emotividade”.
A noite começou finalmente para o grupo, agora completo, com bebidas a serem servidas, e Adriano deu por si na pista de dança, com parte do grupo. De forma quase natural, Gabriela estava ali também, e não raras vezes estavam a dançar juntos. O resto do grupo lançava indiretas sobre os dois, sinalizando que ali poderia estar algo a acontecer. Até os deixaram sós na pista de dança quando o DJ começou a passar alguns “slows”, e eles dançaram apropriadamente, bem juntos.
- Que noite, não é? – sussurra Adriano ao ouvido de Gabriela
- Sem dúvida – responde Gabriela sorrindo
- Nunca mais nos vamos esquecer do nome deste sítio – continua Adriano
- Rasputine! – grita Gabriela, que olha para o relógio dizendo – Cinco e meia...
- Então?
- É a minha hora – continua Gabriela – às 10h entro ao serviço e queria dormir um bocadinho
- Que pena – diz Adriano com ar mais triste
- Eu não tive – responde Gabriela – adorei estar contigo
Adriano olha-a nos olhos. Estão de rosto muito próximos um do outro. Gabriela coloca-se em bicos de pés para alcançar mais o rosto de Adriano, que aproxima os seus lábios dos dela, e despedem-se:
- Boa noite! – diz ele
- Boa noite para ti também... – diz ela afastando-se
Gabriela dirige-se a Paula e a Nuno, despede-se deles, grita para todo o grupo acenando, e sai porta fora. Adriano sorri e regressa para junto do grupo, onde alguns começam a gritar como se fossem uma claque, e a saltar ao som da música que voltou ao registo mais festivo. Um dos colegas de curso de Adriano e Nuno, o Filipe, puxa Adriano para o lado e diz que quando quiser sair para lhe dizer, que ele ficou “encarregue” de o deixar na Praça de Espanha. Adriano acena fazendo sinal que daí a cinco minutos seria a hora, e vai até à casa de banho.
Ao sair da casa de banho, pouco depois, nota que o grupo começa a desmobilizar-se tendo alguns já saído. Nuno parece estar ainda mais ébrio, e Paula já mostra um ar menos agradado no rosto. Adriano dirige-se a ela para se despedir, Nuno agarra-lhe o braço e grita a pedir desculpas, mas Adriano apenas acena com a cabeça, evitando prolongar o diálogo, pois o estado de embriaguez parecia mesmo acentuado. Fez sinal a Filipe e saíram os dois.
Meia hora depois estavam na Praça de Espanha, e Adriano olhava para o relógio, considerando que a primeira “camioneta” já havia saído, mas a segunda já não demoraria muito. Eram 06h40, e até às 07h a espera não seria muita. Após sair do carro, Adriano olhou para os quiosques da feira regular que ali se fazia, procurando se algum estaria aberto. Precisa de café, pensou, mas teria de aguentar, pois ainda nenhum estava aberto. Olhou para a paragem, e viu que a “camioneta” já lá estava para iniciar carreira, apesar de os passageiros ainda estava fora, formando uma fila. Dirigiu-se para a fila, e pouco depois começaram a entrar. Quando chegou a sua vez, mostrou o “passe” ao motorista e sentou-se a meio da camioneta num lugar junto á janela do lado direito.
A viagem iniciou-se, e ao atravessar a ponte 25 de Abril, Adriano viu o nascer do sol do lado oposto da “camioneta”, e começou a sentir um peso nas pálpebras, sucumbindo à força do sono. Algum tempo depois, Adriano sente um abanão. Abre os olhos e vê que o motorista da camioneta o está a abanar pelo ombro.
- Acorda! – diz o motorista de voz grossa
Adriano olha em volta, e percebe que está na garagem da estação de autocarros/camionetas... de Setúbal!
- Oh... f.... – e não diz a palavra, perante o olhar reprovador do motorista – desculpe... quer que pague o bilhete da Quinta do Conde até aqui?
- Não... – e enquanto aponta na direção de outra “camioneta” - mas para fazeres a viagem de volta ali o meu colega vai te pedir o valor de bilhete de certeza... – e olhando para Adriano continua – a não ser que queiras ir comigo para Évora, mas esse bilhete já te vou cobrar
- Não, não, deixe estar – disse Adriano enquanto se erguia para sair – obrigado!
Frustrado por se ter deixado dormir a ponto de ter falhado a paragem de saída, e de ainda se ter metido em mais despesas, optou por não apanhar logo aquela “camioneta” e saiu da estação. Olhou em redor e reparou num sinal luminoso na esquina seguinte a anunciar “Pastelaria Fabrico Próprio”, e começou a caminhar nessa direção. Acordara com apetite, e pensou que mais valia satisfazer essa necessidade do que iniciar a viagem de volta com o estômago a fazer ruídos.
Sentado num lugar à janela da pastelaria, de bancos altos numa mesa montada à janela com um tampo corrido, Adriano ocupava o espaço de duas pessoas, como que, assinalando a vontade de que ninguém o incomodasse. Estava a pensar na noite que passou, em Gabriela como mais uma “poderia ter sido”, e que qualquer outro dos seus amigos teria “avançado”, mas ele sempre achou nunca forçar nada, e que o que quer que tivesse de acontecer, aconteceria. Afinal, nesta fase da sua vida, ele queria se organizar, acabar de tirar a carta de condução para ver se conseguia comprar um “carrito” para poder dar umas voltas por sua conta, sem ter de estar dependente de alguém, ou sujeito a estar com alguém que nem sequer soubesse para onde deveriam ir.
Dez da manhã, Adriano mete chave na fechadura da porta, entra em casa, e deita-se na cama, recomeçando os pensamentos do pequeno-almoço. "Mas que noite esta...", e adormeceu.
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