Pura ficção – A vida de Adriano – Parte IX

Era um grupo de sete mulheres, muito bonitas por sinal, e entre elas Paloma ao centro, sorrindo e chamando por António, ali junto ao balcão do bar. Adriano foi rodeado pelas amigas de Paloma, e atrás delas António esgueirava-se para se aproximar de Paloma. Ele nem conseguiu fixar o nome delas, mas ficou a responder às perguntas delas. De onde vinham, o que faziam, como é que lhes passou pela cabeça vir da capital de Portugal para Badajoz, para elas um sítio provinciano. Ele manteve-se sereno e até um pouco agradado por tanta companhia feminina, mas não demorou a perceber, ou a pensar, que tal atenção se devia à proteção de Paloma. Para todos os efeitos, elas são ciganas e têm a família para respeitar e o romance – sim, estava assumido ser um romance – entre António e Paloma para esconder. Por ali ficaram animadas, com Adriano algo surpreendido por se sentir no centro das atenções. Conseguiu perceber que uma delas, a que mais falava com ele, parecia liderar o grupo. Por idade, talvez, pensou, mas pela postura com toda a certeza. Parecia ser ela que escolhia a conversa, sobre o que falar e até sugeria o que cada um bebia. Sim, escolheu a bebida para Adriano e ele nem discutiu. António sorria, de mãos dadas com Paloma, trocando carinhos às escondidas no canto do bar, e quando avistava Adriano fazia-lhe sinais com o polegar (estava tudo ok).

Quase hora e meia depois, conversa sempre animada, Adriano já sabia o nome da líder do grupo, Lucía e das restantes. Mari Cármen, Pilar, Martina, Sofia e Yolanda. O problema era acertar com os nomes delas além de Lucía. O diálogo entre elas era de tal forma frenético para ele, mas afinal, típico da mulher extremeña e andaluz. António e ele várias vezes haviam brincado com a expressão “gará gara gará gara” dita depressa, para simular a forma como assistiam às suas conversas. Adriano sentia-se algo assoberbado, pois elas não se coibiam de o agarrar pelo braço, puxá-lo pelo pescoço para lhe beijar o rosto, e ali estavam em conversa animada. Adriano olhou para o relógio e notou serem quase duas da manhã. Lucía estava ao seu lado, e olhou para o relógio ao mesmo tempo, e segredou-lhe ao ouvido:

- Nos vamos al club?

- Si, claro. Pero todos?

- Si, vamos todas contigo.

António estava já ao seu lado quando todo o grupo se aproximava da porta para sair. Caminharam até ao carro, com Adriano preocupado sobre se teria de fazer duas viagens entre o bar e o clube para onde decidiram ir.

- Levamos todas – diz-lhe António

- Todas? Isto é um 106 Open, não é uma Mercedes de passageiros – responde Adriano

- Já vemos como fazemos. Não é longe daqui, de certeza que não apanhamos polícia.

- Tens assim tanta certeza?

Adriano abriu a porta do carro, um Peugeot 106 Open de 3 portas, dobrou o banco do condutor para permitir passagem para o banco de trás, e António fez o mesmo do seu lado. Primeiro entraram três, e depois outras três que se aglomeraram ao colo das primeiras que entraram. Paloma ainda estava de fora do carro e foi a última a entrar, sentando-se ao colo de António no lugar ao lado do condutor. Adriano sentou-se no lugar do condutor, ligou o carro, colocou o cinto, e começou a conduzir exclamando que necessitava que lhe indicassem o melhor caminho. Nesse momento, surge o braço de Lucía por cima do seu ombro a indicar-lhe para onde virar, enquanto ele ouvia a sua voz atrás de si. António ria ao ver as expressões de Adriano. Ele parecia estar a procurar um sentido de normalidade na situação, mas ter nove pessoas dentro do carro não seria a situação ideal para encontrar tal sentido.

Quinze minutos depois, Lucía diz a Adriano para aproveitar um lugar junto ao passeio em frente à entrada do Clube Nicotina. Quando Adriano abre a porta do carro para sair, um dos seguranças sai de junto da entrada para se dirigir a ele. Assim, que ele empurra o acento para a frente, tem esse homem a dizer-lhe que não pode deixar ali o carro, quando vê sair Lucía, e depois todas as restantes cinco mulheres. O segurança fica estupefacto, e acaba ajudando a última delas a sair. Lucía tinha ficado de braço dado com Adriano, que depois fechou a porta do carro, já António e Paloma se tinham escapado para entrar no clube. O segurança desistiu da intenção de o fazer tirar dali o carro, e acabou acompanhando o grupo para entrar no clube. 

Era um espaço enorme e decorado como tantos outros na época, bolas de cristal no teto, luzes de várias cores, mas em tons escuros, bailarinos e bailarinas a dançar em cima das colunas com trajes mais ou menos explícitos. António e Paloma rapidamente desapareceram, e apenas Adriano ficara junto do restante grupo. Algum tempo depois, passavam alguns homens que Adriano identificou como de etnia cigana, e que Lucía lhe segredou ao ouvido que se tratava dos primos de Paloma à procura dela. Disse também que eles não o tomavam como ameaça, mas que António deveria ter cuidado, pois eles estavam convencidos que Paloma não tinha saído naquela noite.

Adriano não fazia a mínima ideia de onde o casal estaria, apesar de suspeitar o que estariam a fazer, mas ele nada poderia fazer senão desfrutar da companhia que lhe tinha calhado. Aliás, era companhia que lhe agradava. A conversa estava igualmente animada, e a certa altura, uma delas diz que o par de portugueses (ele e António) eram como a dupla d’O Bandido e o Cavalheiro, o que provocou largas gargalhadas no restante grupo. Adriano ainda simulou duvidar de quem seria quem, mas Lucía que tinha o cotovelo no seu ombro, acariciava-lhe o cabelo e segredava-lhe ao ouvido:

- Mi Caballero...

Adriano ficou a pensar que esta coisa de ser sempre o cavalheiro e o bem-comportado, não estaria a trazer grande proveito. Mas por outro lado, ele até apreciou que lhe tenham atribuído essa aura. Dava-lhe uma certa autoridade e postura altiva, quase vaidosa. Mas que lhe permitia granjear boa relação com praticamente qualquer um com quem se cruzasse. Os primos de Paloma até lhe ofereciam bebidas, só porque ele trouxe todo o grupo no seu carro até ao clube, não permitindo que elas ficassem sozinhas no bar a meio da noite. Adriano ficou a pensar que havia partes de conversas que não percebeu bem de onde teriam vindo, mas deu para ver quem estava a puxar os cordelinhos por ali. Lucía funcionava como mentora das outras, e era a prima mais velha de Paloma. A noite foi passando, as músicas foram passando, Adriano foi várias vezes até à pista de dança, umas vezes sozinho, outras com Lucía que decidira ficar perto dele naquela noite.

Foi com alguma surpresa que numa das vezes que regressava da pista de dança com Lucía, se deparou com António sozinho encostado ao bar. Sorria, e saudou-os, para puxar Adriano para lhe dizer:

- Quando quiseres sair, diz

- Sair? Houve algum problema?

- Nenhum. A Paloma não quis arriscar mais e decidiu aparecer aqui daqui a pouco como se tivesse se escapulido de casa para aqui vir ter com as primas e as amigas. Como os primos andam por aí, chegamos aqui separados.

- Está bem. Mas é para ir já embora?

- Tu é que sabes. Se quiseres ficar...

- Já te digo.

Adriano regressou para junto de Lucía, que o agarrou pelo braço para lhe dar a mão. Com a mão livre entregou um copo a Adriano, e alcançou outro para ela. Brindaram, beberam, e sorriam um para o outro. Pareciam cúmplices, comentou-lhe Lucía para Adriano abrir novo sorriso. Momentos depois, surge Paloma a dar as boas noites ao grupo. António manteve-se distante, evitando demonstrar qualquer reação, proferindo um breve “buenas noches”. Os primos de Paloma estavam por perto e rapidamente se acercaram do grupo, saudando-a e perguntando-lhe por tinha estado. Ela respondeu-lhes que tinha chegado há pouco, pois não conseguia dormir, e resolveu vir encontrar as suas primas ao clube.

Algum tempo depois todo o grupo estava na pista de dança. António e Paloma tocavam-se de costas um no outro, e alcançavam os dedos um do outro para logo se afastarem. António sorria para Adriano, que já tinha desistido de abanar a cabeça. Só pensava que se isto corresse mal, haveria muita coisa com que se preocupar. Mas António adorava este jogo. Tinha a adrenalina no pico, e não parava de dançar.

Aproximavam-se as seis da manhã, e o grupo de Lucía e Paloma dava sinais de cansaço e que se preparavam para regressar a casa. António e Adriano percebendo isso, resolvem se encaminhar para a porta. O segurança que antes os recebera à entrada, fez-lhes sinal de continência à saída provocando risos em António e um sorriso irónico em Adriano. Lucía tocou Adriano no braço, e quando ele se voltou, ela despediu-se dele com dois beijos no rosto, um no nariz, outro no queixo, e parou com a sua boca a milímetros da boca de Adriano, para apenas dizer:

- Tu eres mi Caballero cariño! – e virou-se para o segurança pedindo que chamasse dois táxis para o grupo se ir embora

António ficou atónito a olhar para Adriano.

- Então, mas tu... não aproveitas?

- Aproveito o quê?

- Mas que grand’a tótó, man...

- Vamos, mas é embora que eu gostava de regressar inteiro. Tu abusas da sorte. Qualquer dia não sei...

À medida que se afastam a caminho do carro, ouvem a voz de Paloma a gritar a plenos pulmões:

- Antóniooooo! Guapoooooo! Vueeelveeeee!

António vira-se para trás e beijando a ponta dos dedos sinaliza que lhe manda um beijo pelo ar. Paloma simula que agarra algo no ar, e coloca as mãos no peito, sendo escondida pelo grupo de Lucia, perante a aproximação dos primos que estavam também a sair do clube pouco depois.

Adriano e António entram no carro, e Adriano começa a pequena viagem de volta à casa dos avós de António em Barbacena. Cerca de 20 minutos depois, Adriano faz a manobra de estacionamento do outro lado da rua, saem do carro, e entram em casa. António sorridente diz que foi uma noite memorável, sendo que Adriano concorda assinalando que tão depressa se esquecerá. António entrega um par de lençóis a Adriano que coloca no sofá que, entretanto, abrira para se deitar. António seguiu para o quarto dos avós, deixando Adriano deitado a fechar os olhos, entrando rapidamente num sono profundo. Eram seis e quarenta da manhã, e a ideia seria de dormir até à hora do almoço, para dar uma volta à tarde na cidade de Elvas.

Adriano sente António a abaná-lo desesperadamente.

- Adriano! Man! Acorda! Por favor, acorda!

- Ahn?! – Adriano reage confuso, e surpreso, mal conseguindo abrir os olhos – O que foi?

- Man – António chora em pranto – Man.… o meu avô!

- O teu avô? – Adriano percebe que algo de grave se passa – o que se passou? – pergunta enquanto procura o relógio ou o telemóvel para tentar perceber as horas

- O meu avô morreu! A minha mãe ligou-me agora! – responde António em lágrimas enquanto caminha de calções de pijama e em tronco nu de um lado para o outro da sala – Eu tenho de ir para casa!

- Ok. Vou me vestir e vamos já – responde Adriano de pronto


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