Pura ficção – A vida de Adriano – Parte VI
“Amante
Meu amor, esses teus dedos,
Cariciam com mestria.
Da língua, guardo os segredos,
É toda sabedoria.
Amante melhor não há,
Tu és pra mim meu eleito.
Tens meu modo e tens meu jeito,
Outro não te igualará.
Fomos feitos um pró outro,
Eu, plo menos, penso assim.
Tu, bebes pelo meu corpo,
Eu, nem sequer caibo em mim.
Para o nosso grande amor,
Não há adjetivação.
É tão lindo, tem valor,
Vive de imaginação.” **
Enquanto Teresa lia um trecho do livro que lhe acabara de oferecer, Adriano observava-a atentamente. Os detalhes do seu rosto, a cor dos seus olhos, a forma como afastava o cabelo para trás da orelha, e só lhe ocorria pensar que estar ao lado de uma deusa.
Horas antes, Teresa havia telefonado a Adriano recordando que tinham ficado sem tomar o café que haviam combinado na inauguração da exposição, e que já tinham passado três meses...
- Três meses? – exclamou Adriano
- Sim – continuou Teresa – e parece que andas a tentar fugir de mim...
- Eu? Fugir? – Adriano mudou o tom de voz, ironizando estar ofendido – Eu só tenho estado ocupado... tirei a carta, e até já consegui ter um acidente e escavaquei a carrinha que o meu pai me deu...
- Então? Mas ficaste ferido? – Teresa mostrou preocupação
- Não, foi só um susto. Perdi o controlo e entrei em “loop” num cruzamento e acabei pendurado em cima de um semáforo ali no Barreiro.
- Oh! Dizes isso como se fosse pouco?
- E não foi muito. Ninguém se magoou, felizmente... – e tentando mudar o assunto, que o deixava incomodado – mas, entretanto, já arranjei outro carrito, e já consigo sair sem estar pendurado aos nossos transportes públicos
- Que bom...
- Queres jantar hoje? – interrompeu Adriano quando parecia que Teresa ainda ia prosseguir – Desculpa, mas não quero deixar passar mais tempo. Só falamos ao telefone, e depois acabamos por nunca falar cara a cara...
- Claro que sim... estranhamente, não combinei nada para hoje, e é sexta-feira! – gracejou Teresa
Debateram um pouco sobre onde se encontrar, e Teresa mencionou que havia deixado o carro na sua casa de fim de semana na Costa da Caparica, e que talvez Adriano lhe pudesse dar boleia. Adriano concordou de imediato, e sugeriu jantarem já naquela zona, e que poderiam sair mais cedo. Adriano já tinha tantas horas a mais no seu “ponto” que se tirasse o dia, ninguém lhe apontaria nada no trabalho. Teresa anuiu e Adriano às 14h55 estava a parar o seu carro em frente ao emprego de Teresa. Desligou o carro, e olhando para o relógio constatou que ainda tinha vinte minutos para a hora que combinou com Teresa. Mas, ele sempre tentava chegar aos seus compromissos com mais tempo, fruto talvez da sua experiência em transportes públicos, que tanto se atrasavam e obrigavam a organizar o cumprimento de compromissos sempre com imenso tempo de folga. Do seu avô materno, ele apanhou a “mania” de não fazer ninguém esperar por si. Agora não foi diferente.
Adriano reparou que o local até fica bastante perto do sítio onde costumava apanhar a “camioneta” para casa. A dois passos da Praça de Espanha, o local onde Teresa trabalha parece um edifício de escritórios de gente importante. À hora combinada, Adriano está encostado ao carro, virado para a entrada do edifício, de onde consegue vislumbrar a luz da porta do elevador a acender. Está a chegar alguém. Saem três pessoas e à frente surge Teresa. Vestida de casaco de fato e saia curta de cor salmão, e camisa branca. Na mão direita segura uma pasta com documentos, e no braço esquerda uma pequena carteira preta. Cumprimentam-se com dois beijos no rosto, e abrem um sorriso largo. Adriano oferece-se para segurar na pasta, perguntando se pode colocar no banco de trás, e enquanto abre a porta, comenta que já ouviu na rádio que já há trânsito para a ponte 25 de Abril.
Enquanto seguem viagem, e já se encontram no “pára-arranca” na via de acesso à ponte, conversam animados. Adriano já conta histórias caricatas do serviço de atendimento que costuma fazer, e Teresa solta gargalhadas a cada “punch line”. Nos carros ao lado, naquele engarrafamento, o tédio na cara dos condutores é bem visível. Quem quer que passe por eles, olha-os de soslaio, como que censurando tamanha boa disposição num engarrafamento assim. O acidente à entrada da ponte obstruía duas das três faixas de rodagem, e obrigava a concentrar ali todas as viaturas a caminho da ponte. Para Adriano e Teresa, iniciar a travessia efetiva da ponte fez soltar a sensação de que nem tinham sofrido muito no engarrafamento, não fora terem olhado para as horas e percebido que ali tinham passado a última hora. Faltavam 20 minutos para as cinco da tarde, e numa sexta-feira, com aquele acidente e aquele trânsito a decisão de jantarem na margem sul. Teresa pediu a Adriano que passassem por casa dela primeiro, pois queria mudar de roupa e ficar mais à vontade. Adriano concordou, dizendo que ia apenas tirar a gravata para ficar “mais à vontade”, e de imediato tirou a gravata e abriu os botões da camisa, e arregaçando um pouco as mangas, anunciando:
- Já está!
Precisamente às 17h, Adriano para o carro em frente a um edifício de dois pisos, não longe da avenida que sucede à via rápida que vem da ponte em direção à Costa da Caparica. Adriano preparava-se para abrir as janelas do carro e ficar à espera, quando Teresa lhe diz:
- Nem penses! Vens comigo. Assim conheces a minha filha!
- Ok – diz Adriano enquanto fecha as janelas do carro, e sai para entrar no prédio junto com Teresa
- Ainda temos tempo antes de ir jantar... – explica Teresa enquanto põe a chave para abrir a porta do prédio
Sobem ao primeiro andar, e Teresa abre uma porta do lado direito das escadas, e logo se ouve uma voz:
- Olá, mãe!
- Olá, filha! – responde Teresa ao entrar em casa, puxando Adriano pelo braço para o apressar a entrar
- Com licença... – profere Adriano no seu tom de voz grave, enquanto entra em casa
- Oh! Não vieste sozinha...
- Não. Vim com o Adriano.
- Olá, eu sou Anabela – diz a filha aproximando para cumprimentar Adriano com dois beijos no rosto – já que a minha mãe não nos apresenta, apresento-me eu...
- Não sejas assim – Teresa responde em jeito de repreensão – nem tive tempo
- Que olhos tão bonitos que tu tens... – diz Anabela enquanto pisca o olho para Teresa
- Obrigado... – balbucia Adriano surpreendido com o elogio
Anabela é tão bonita como a mãe, pensa Adriano. De altura semelhante, e porte vigoroso, e impactante, tal como mãe, continua Adriano a pensar, que ficou embevecido pelo elogio aos seus olhos. Ficou na dúvida sobre o que motivava aquele flertar que sentiu, ou se foi isso que percebeu. Ele nunca fora grande especialista em perceber esse tipo de sinais. Vários dos seus amigos gozavam com ele por causa disso, chegando a chamá-lo de “Adriano perdido” por conta das “oportunidades perdidas”. Mas ele não se preocupava com isso. Limitava-se a encolher os ombros e a pensar para si mesmo: “O que será, será”.
Dez minutos depois, Teresa surge na sala provocando em Adriano mais um cair de queixo. Ela estava de calções de ganga curtos, e um top branco a mostrar os ombros e um decote generoso que intimidava mais do que sugeria. Ela apanhara o cabelo num rabo-de-cavalo que lhe dava um ar de aventureira de safari. Adriano sentia-se algo deslocado. Ainda envergava o fato que levara para trabalhar, e dessa “farda” apenas a gravata tinha ficado no carro. A ideia de começar a andar com um saco com uma muda de roupa começou a nascer na sua mente.
Teresa vai à estante da sala e tira um livro. Debruça-se sobre a mesa, e pegando numa caneta que ali estava, começa a escrever na contracapa do livro. Adriano observa-a debruçada sobre a mesa, e começa a repreender-se a si próprio para parar de pensar em disparates. Teresa é uma amiga, dizia para si mesmo, e não é para se pôr com parvoíces, e a imaginar coisas. Desde tenra idade que Adriano mantinha esta sensação de se desvalorizar. Nos tempos de escola, ou quando saiu para estudar e trabalhar, ele sempre aceitou que não valeria muito em comparação com outros, o que mantinha grande parte dos seus interesses românticos à distância, e devidamente defendidos por objetivos profissionais e pessoais, que considerava estarem à frente “dessas coisas”. Ele até chamava aos namoros fugazes que tinha tido como “recontros”. Alguns amigos até lhe chamavam a atenção para evitar ser tão rude quando alguém mostrava algum interesse, pois ele sempre se defendia de cada abordagem.
Teresa solta o cabelo, e senta-se no sofá ao lado de Adriano que imóvel olha para o livro que ela tem na mão. Abre-o, e anuncia:
- É para ti.
Adriano olha para a capa do livro e vê o nome dela inscrito na capa.
- És escritora também?
- Poetisa e cantadeira... – responde sorrindo
Adriano abre o livro e vê o que Teresa escreveu. É uma dedicatória para o seu “amigo Adriano”, o que o deixa mais ou menos descansado, face à situação e ao que antes pensava ser “disparate”. Ela não tinha interesse nele. E isso deixou-o mais descansado. Não tinha que se defender como habitualmente. Daí que não reagiu quando ela lhe segura as mãos com a sua mão esquerda para lhe tirar o livro com a mão direita. Coloca o livro ao colo, e começa a ler um poema. Quando ela termina de ler, ou declamar o poema, vira-se para Adriano e ficam com o rosto a centímetros... e beijam-se demoradamente.
Adriano sente-se apanhado, como que num delito, em flagrante. Baixou as defesas pensando que não daria em nada, e de repente, está a beijar a passar as mãos nesta mulher.
Quando param de se beijar, ficam a olhar um no outro, olhos nos olhos, repetindo os beijos. Adriano sente-lhe o perfume, e o toque na pele, sente-se levado para as nuvens. Voltam a parar, e Teresa levanta-se ajeitando o cabelo, os calções e lança a mão a um blazer que tinha pendurado numa cadeira. Adriano levanta-se logo de seguida, quando vê Anabela a tocar na porta da sala, a anunciar que vai sair.
- Onde vais? – questiona Teresa
- O Mateus veio me buscar – responde Anabela, enquanto se vira para Adriano acenando-lhe – adorei conhecer-te “Adriano dos olhos lindos”
- O prazer foi meu – responde Adriano de forma profissional
- Eu sei que foi – diz Anabela enquanto sai porta fora
Adriano vira-se de novo para Teresa que está a aproximar-se dele, colocando os braços atrás do seu pescoço e procurando beijá-lo de novo.
- Quem é o Mateus? – pergunta Adriano
- É o namorado da minha filha... mas não é deles que hoje quero falar... – e torna a beijá-lo
Adriano corresponde, deixando-se levar pelo momento. Pouco depois, decidem sair para jantar conforme tinham combinado. Entram no carro, e dirigem-se para o restaurante que Adriano tinha pensado em levá-la, no Porto Brandão. Um sítio com vista para Lisboa e onde o vislumbre do por-do-sol torna o local semelhante a uma pintura. A cada pausa na viagem, quando param para estacionar, e ao sair do carro, sucedem-se as trocas de beijos e de carinhos, de toques mais ou menos ousados. Parecem um casal de namorados enquanto se encaminham para o restaurante.
É o início de um fim de semana em grande, pensa Adriano.
** excerto do Livro “Por amor de”, Teresa Machado de Ed. A. Magalhães Pacheco, Porto, 1992; retirado apenas para contexto da história aqui contada
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