Pura ficção – A vida de Adriano – Parte IV

Adriano assistiu com deslumbramento e atenção ao evento, e em especial a Teresa a declamar o texto do livro que estava a ser apresentado. Sentiu-se vaidoso por estar num meio cultural evoluído, por fazer parte, por breves momentos que fossem, de um meio assim. Ouvia as pessoas a conversar sobre temas de música, de livros, debatendo citações, e além de vaidade, também o fazia sentir na sua dimensão. Pequenino. Pequeno de conhecimento, e de saber. A maioria daquelas pessoas tinham estudado, lido e relido, sobre coisas que ele não teve oportunidade, e nem sequer pensou em procurar. Naquela hora, Adriano pensou estar a espreitar à janela de todo um mundo novo, e diferente.

Sozinho, segurando um copo de sumo de laranja, olhando a sala em redor, vê-se interrompido por Teresa que o assalta:

- Então? Gostaste? 

- Oh! Adorei... ainda estou a processar tudo...

- Ainda bem... vem cá – disse enquanto o puxava para uma zona do salão do evento onde estavam menos pessoas – que vais fazer agora?

- Bom... eu... vou para casa acho eu. O que ainda é uma viagem...

- Tens o carro onde?

- Eu... não tenho carro... nem carta para dizer verdade

- Então, eu dou-te boleia!

- Para onde? Não é preciso... eu apanho o autocarro para casa ali na Praça de Espanha.

Estavam mais pessoas a chamar por Teresa, e ela tentava repartir a atenção. Adriano achou que seria o momento de abandonar o evento, e tocando no braço de Teresa disse-lhe que falariam depois. Ela acenou com a cabeça, e pediu-lhe desculpa por não lhe dar mais atenção, e tirou um cartão de visita da bolsa de mão e colocou-o no bolso do casaco de Adriano. Despediram-se da mesma forma com que se encontraram ali, com dois beijos no rosto, e Adriano afastou-se em direção à estação do metropolitano.

Enquanto seguiu para a paragem dos autocarros, de onde tomaria um autocarro (na altura ele chamava-lhes de “camioneta da Rodoviária”) em direção a casa. A Quinta do Conde ainda ficava a uma hora de caminho, mas à hora que ele seguia naquele dia, não esperava grandes demoras para atravessar a ponte. A hora de ponta já havia passado, e apesar de ter jantar em casa para aquecer e comer, pensou ser oportuno comprar um bifana e um sumo nas barraquitas do mercado ali perto, para levar e comer de caminho. O “ratinho a roer” já estava bastante ativo, e o almoço tinha sido às duas da tarde, e como já eram nove...

Como era seu hábito, fez a viagem entre sonos curtos e olhares perdidos na paisagem ao longo do percurso. Naquela viagem diária, Adriano tinha o que chamava de “pontos de controlo”. Dois pontos onde durante a viagem a “camioneta” ou dava um solavanco forte para a direita, o que lhe dizia que tinham saído da autoestrada e estavam a entrar na estrada nacional no Casal do Marco; ou sentia um arrepio no inverno, ou um bafo quente no verão, que lhe dizia estar a passar numa ponte sobre a autoestrada à entrada da Quinta do Conde, que significa que só faltavam duas paragens para sair, e fazer o resto do caminho a pé para casa.

Adriano já vivia sozinho há uns dois anos, viste que sua mãe tinha ido morar para Lisboa com o seu companheiro, e ele optou por ali ficar cultivando a sua independência de vida. Apesar de algumas vicissitudes anteriores, que lhe deixaram algumas dívidas por pagar, optou por dali tentar recomeçar a sua vida naquela fase, e passo a passo seguir. Estava agora a tentar juntar o dinheiro para poder obter a carta de condução, para poder ser mais autónomo e não tão dependente de terceiros, ou dos transportes públicos cujo horário não lhe permitiam sair de Lisboa depois das 00:30, e antes das 06:00. Saídas noturnas eram uma espécie de “tudo ou nada”, onde os arrependimentos a meia da noite resultavam numa aventura de espera e tédio supremo. Exceto quando algum estranho acontecia, como por exemplo, num jantar de aniversário de um seu colega de curso, o Nuno.

Pedro convidou Adriano, mesmo sabendo das suas dificuldades de movimentação aos fins de semana, para um jantar de aniversário, e para uma saída subsequente a uma discoteca. Comprometeu-se inclusive a levar Adriano à paragem dos autocarros à hora do primeiro autocarro, ou se caso fosse preciso, até lhe daria boleia até casa. Adriano aceitou e naquela sexta-feira, saiu do escritório nos Olivais e apanhou o autocarro até ao Cais do Sodré, para dali apanhar o comboio até ao Estoril. O jantar estava marcado para as 21h num restaurante bem perto do Casino do Estoril. Adriano chegou quinze minutos antes, como ele gostava de fazer em qualquer compromisso, e parou em frente ao restaurante. De um carro que estacionou em frente, sai Nuno com a namorada, Paula. Cumprimentam-se, com Adriano a dar um abraço a Nuno enquanto lhe dá os votos de feliz aniversário, e começam a caminhar para a porta do restaurante. Nuno pede a Adriano para ainda não entrar, e fica à conversa com Paula. Nuno foi apenas avisar o chefe de mesa do restaurante que ele já tinha chegado, e que faltavam alguns dos convivas e iriam entrar todos ao mesmo tempo.

A semelhança daquele encontro com um encontro de ex-alunos do curso que tinham feito não era coincidência. Eram notoriamente a maioria daquele grupo de vinte convivas do jantar. Após quase três horas de convívio, jantar e cantorias de parabéns, a reunião aproxima-se do fim. Altura em que Nuno se coloca atrás de Adriano e lhe põe o braço ao pescoço, simulando um estrangulamento e diz:

- Vens connosco até à discoteca, não vens?

- Bom, sob ameaça sou obrigado a aceitar, não é? – responde Adriano rindo

- Mas nós temos o carro cheio – diz Paula que o acompanhava – com quem o pomos?

- Pode ir com a Gabriela, que veio sozinha – diz Nuno com a voz algo enrolada, indicando que já estava com um “grão na asa”

Paula faz um sinal a Gabriela que estava sentada do outro lado da mesa, uns três lugares para sua esquerda, e gritando por entre a confusão do momento, percebe-se que Gabriela concordou em levar Adriano até à discoteca para seguirem todos juntos.

Algum tempo depois, estão todos à porta do restaurante em conversa animada, e Adriano aproxima-se de Gabriela:

- Olá, boa noite de novo – diz Adriano sorrindo

- Olá – responde Gabriela com voz nervosa

- Está tudo bem?

- Sim, eu tenho é o carro um bocado longe

- Então, queres ir andando para o carro e esperamos aqui por eles já dentro do carro

- Sim, sim. Vamos...

Entraram num Datsun 100 de três portas, um carro já com vinte anos, bem cuidado e estimado, mas com as portas a ranger a cada abertura e fecho. Perguntou se podia abrir o vidro do seu lado, pois sentiu o calor de imediato, e após a anuência de Gabriela, começou a rodar a manivela da porta e o vidro abriu em conformidade. Gabriela fez o mesmo do seu lado, mas o vidro caiu abruptamente, para susto de Adriano.

- É normal. Faz sempre isto. – esclareceu Gabriela

Gabriela conduziu até à porta do restaurante e identificaram ambos os carros de Nuno e de outros dos convivas. Ela parou e ligou os quatro piscas, mas não precisou desligar o motor, pois momentos depois, a comitiva iniciou o seu rumo em direção à discoteca. Na passagem da rua do restaurante para a Estrada marginal, param num semáforo, enquanto o resto da comitiva passou. Gabriela fica um pouco agitada.

- Estes carros também são do grupo? – questiona Gabriela

- Não sei dizer. Conheço o do Nuno, e de mais alguns... – responde Adriano

Após o sinal verde, Gabriela avança, e começa a exprimir mais preocupação, o que leva Adriano a perguntar:

- Mas tu sabes para onde vamos, não sabes?

- Não...

- Ok, mas sabes o nome do sítio para podermos perguntar...

- Não. Não sei. Um nome esquisito, acho eu...


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