É para ortopedia, reumatologia ou neurocirurgia?



Há coisas que reconheço ter dificuldade em compreender.


Desde há três semanas que decorre no panorama político nacional um drama. Refiro-me a um drama porque se entrou num ponto tal de exibição de argumentos tão incríveis quanto inverosímeis. 


Vamos por partes. Tudo começou com uma estranha lei que se viu aprovada no nosso parlamento, e que, subitamente despertou na comunicação social - eles dizem na sociedade em geral - um apetite por verificar quem tem interesses na matéria. De repente, publicam-se nomes de deputados, secretários de estado como sendo sócios de imobiliárias e que com aquela lei iria beneficiar nesses seus negócios.


Acontece que, nesta pesca de arrasto surge o nome do Primeiro-Ministro associado também a uma imobiliária. Segundo percebi pelos seus primeiros esclarecimentos, trata-se tão somente de uma entidade criada para gerir o património da família. E que quando assumiu o cargo máximo do seu partido, passou a sua quota para a esposa. Assunto arrumado, dir-se-ia.


Só que não.


Em primeiro lugar, porque ao passar a quota para a esposa com quem está casado em comunhão de bens, significa que esse acto é nulo. Ou seja, mudou o nome, mas na base a propriedade é a mesma. A do casal. Mais, pouco tempo depois surge na manchete do semanário Expresso a notícia de que uma das empresas clientes daquela sociedade da família do Primeiro-Ministro é nada mais nada menos que a Solverde. A Solverde gere o casino de Espinho e no Algarve tem também outra concessão, para além de negócios no jogo online. Todas estas atividades licenciadas pelo Estado.


Todo o país começa em ebulição, questionando-se como é isto possível. Chegados esta semana ao parlamento para discussão de uma moção de censura do PCP (oh! A ignomínia! Uma moção de comunistas! Credo que nos cai uma unha!), tudo corre a discutir de forma mais ou menos acesa, mas no final a dita moção acaba por não ser aprovada, por motivos que me custa a entender dada a argumentação que apresentaram todos os partidos no parlamento. Mas adiante, vou apenas assumir que é porque foram os comunistas. Ou então, acreditar que é porque querem que seja o governo a apresentar uma moção de confiança, para aí ser rejeitada e isto ir de novo para eleições.


Eleições! Como é possível? Oh! Por Toutatis! Diria Asterix e a sua tribo. Então como é que num regime que se diz democrático há sempre um discurso corrente e aceite sem contestação de que “é mau haver eleições” e que “ninguém eleições”? E depois ainda se arrogam no direito de dizer sobre o que “o povo pensa” ou o “povo quer” ?


Naquele debate, ficámos também a saber que o Primeiro-Ministro passou agora a posse daquela sua empresa para os filhos. No dia seguinte, vejo a notícia que a Solverde rescindiu o contrato com dita empresa. Para evitar que se continue a denegrir o seu bom nome, segundo percebi. Está bem. Assunto arrumado, vamos dizer.


Só que não. Ora bolas…


Ouvi ontem num podcast - sim, também ouço disso, em especial enquanto conduzo durante os meus afazeres diários - um comentador que se diz ligado ao partido do Primeiro-Ministro explicar que todas as conclusões que estamos todos a tirar com base nas notícias que vieram a público, e que o Primeiro-Ministro teima em não dar explicações cabais, de que ele, desde há muito, é sustentado por um conjunto de empresas da sua zona de nascimento, ou criação, e que é uma chatice que “isto sempre tenha sido do conhecimento de todos no meio político”, e que é uma pena que não se tenha feito algo sobre isto antes de tudo isto. Isto sim, explica os montantes totais que parece terem sido pagos à empresa. 


Quando no meio deste turbilhão de notícias e frenesim de informações “que já se sabem”, ficamos a saber que o Primeiro-Ministro tem a sua casa na capital em obras, e podendo pernoitar na residência oficial, está a fazê-lo num dos bons hotéis da capital. Fiquei confuso, e a pensar como pode o Primeiro-Ministro suportar tal custo só com o salário da sua função… Fico ainda mais confuso porque me quer parecer que o próprio acha totalmente normal estar a receber dinheiro de empresas enquanto desempenha as funções de primeiro-ministro.


Tudo isto desatou-se logo após duas semanas absolutamente tenebrosas para o outro partido, o dos 50 deputados-hooligans, que agora se arrogam em críticos do primeiro-ministro. Está certo, sim senhor. Já há quem ande a dizer que têm razão. Os relógios de ponteiros avariados também sempre certos duas vezes ao dia, e não deixam de estar avariados.


Do outro lado do Atlântico, a febre laranja continua. Tanto o Sr.Almíscar continua na sua senda revolucionária-reengenharia-caótica de dar cabo do Estado Norte-Americano o mais rapidamente que fôr possível, justificando no famoso DOGE, que se empenha (ou será emprenha?) na eficiência do funcionamento do Estado e prosseguem anunciando poupanças, depois corrigindo porque foram confrontados com factos, e com os próprios erros, erros esses de um bizarro nível de amadorismo. O senhor de tez laranja fez o seu primeiro discurso ao Congresso, e assistimos a mais um deprimente espectáculo onde debitou um chorrilho de mentiras, sendo a minha favorita a que se “queixou” de uma verba de 8 milhões de dólares (era milhões, não era? Com aquela malta nunca tenho a certeza) para projeto de “ratos transgenders”. Oh! Como é possível?


Realmente, não é. Porque não foi. Trata-se de um projeto científico de “ratos transgénicos” que pelos vistos é tecnologia de ponta em biotecnologia que potencialmente pode ajudar a curar doenças como o cancro. Aquele burros do c**alho (desculpem mas teve que ser) não tarda estão a atirar a tudo o que diga “trans”. Que se cuidem as empresas de TRANSportes, de TRANSlation (tradução), só para mencionar algumas, porque vão ser alvos não tarda. 


Entretanto, os preços dos ovos trepam a olhos vistos, e até já há vídeos virais sobre 19 dólares por um morango. É um senhor morango, sim senhor. Mas é um morango. Não contente com isso, o senhor de tez laranja prossegue na aplicação de tarifas alfandegárias - ainda há muito americano que não percebeu como funcionam - e os países vizinhos preparam-se para ripostar. No caso do Canadá a coisa está de tal ponto, em que há lojas que simplesmente optaram por não importar mais bens dos Estados Unidos. Ainda sem tarifas de resposta por parte do Canadá. Entretanto, a administração norte-americana tem andado a recontratar trabalhadores que despediu antes, e a suspender a aplicação de tarifas de forma temporária.


Posto isto, eu pergunto:


É para ortopedia, reumatologia ou neurocirurgia? Há colunas vertebrais a necessitar de intervenção urgente...

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