O que queremos afinal?
Confesso que, por vezes, me sinto assolado por um sentimento que me impele a lançar insultos e ignomínias a algumas pessoas.
Estive a ouvir a “podcastosesfera”, e os debates que a paciência me deu forças, e a ler várias coisas sobre a crise política que se abateu sobre o nosso estimado país. Ouvi e li, pessoas a dizer que isto não passa de uma cabala contra o Primeiro-Ministro, e que é uma perseguição. Ouvi e li outros, que consideram não podemos ter um avençado a governar o país. Os que se queixam de perseguições dizem que este governo é o que mais fez desde que entrou em funções, e os outros rebatem o argumento enumerando as coisas que fizeram aprovar, e as que já estavam prontas do governo anterior.
- Privatizar centros de saúde
- Vetar acesso às urgências com um telefonema, sem que se desse uma alternativa
- Continuamos com falta de professores, mesmo contratando reformados. E o problema sempre era de eficiência…
- A famosa lei dos solos, que poucos explicam, mas que apenas serve para desregrar a construção, e recuperar as asneiras que se fizeram nos anos 80
- PPP’s ao pontapé
- Gestão de hospitais para as Misericórdias (qual o critério?)
- Perda total de controlo da despesa do Estado com tanta privatização de despesa
- Aumento de apoio à comunicação social privada (para garantir propaganda?) expoliando a função aglutinadora da RTP nas comunidades portuguesas, e na informação isenta que deveria ser
- Recuperou o rendimento para as polícia
- Lançou pacote habitação para jovens
- Os ricos que já não precisavam?
Mas no fundo o que queremos afinal? Além de querer “estar em sossego”, queremos saúde e educação para todos? E habitação condigna para todos? Queremos ou não? Onde colocamos condições? Em merecimento? Mesmo? Então e aos fumadores? Não os tratamos para o cancro de pulmão? Seria bom começar a perguntar às pessoas o que é que realmente querem da sociedade. Mas o que querem e explicando as consequências daquilo que querem.
Quando entro num café, e assisto a algumas conversas de pessoas influenciadas por certo por aquilo que lêem no jornal que está no balcão ou numa das mesas - invariavelmente é o CM - ou na TV (TVI e CMTV são as mais habituais), e onde só ouço alarvidades ditas como se fossem grandes verdades. Fico a pensar que é esta gente que acaba a votar em pedófilos, ladrões de malas em aeroportos, fugitivos de pagamentos de pensões e afins. Tudo porque, disse umas coisas certas. Tal qual um relógio parado que duas vezes ao dia, está certíssimo. É come se fosse acometidos de uma crise de acefalopatia espongiforme. Dá vontade de lhes bater ou insultar.
Se querem ser todos eremitas, viver sozinhos e isolados de tudo o resto, e numa base de “salve-se quem puder”, onde a lei do mais forte impera, ou se querem viver numa sociedade, com outras pessoas, que conhecem e não conhecem, e que tipo de sociedade querem. Se querem ou não que o acesso a cuidados de saúde seja universal, ou que seja pago, se querem que a educação seja universal, ou atribuída conforme quem pague mais por ela, e se querem que seja possível concentração de poder económico, ou se querem que seja controlado para evitar abusos, ou evitar concentração como se fez no séc XX nos EUA onde houve impérios económicos divididos porque se considerou serem demasiado grandes (ex: Rockefeller com a Standard Oil). A partir daí que se tomem consequências daquilo que se quer, e que se vote de acordou com isso. E que se cobre aos políticos eleitos por aquilo que se comprometeram e que não esteja de acordo com o que nos fez neles votar. Escrutínio, sim. Como é evidente, e deveria ser claro para todos.
O que fazer quando o povo se engana? Quando votam em racistas, ou votam em terroristas, ou fundamentalistas? Muito depende daquilo que foram as constituições dos países, e daquilo que cada um entender fazer para as defender e fazer cumprir. No entanto, se calhar, se há quem vote para isso, talvez se deva ceder a isso? Parece que, foi o que aconteceu na década de 1930 na Alemanha. Vejam como isso correu…
Parece que há por aí uns tipos a dizer que não correu assim tão mal.
Economia de atenção. Se não a moldam, acabam moldados por ela.
Desde o debate espetacularmente degradante da moção de confiança do governo, que assistimos a incessantes discussões na TV, redes sociais e por aí fora, sobre o que é que o PM pode ou não ter. Os partidários, e correligionários do PM estão a desenvolver a narrativa de que tudo fizeram para evitar as eleições que ninguém queria. Continuam a bater na tecla de que o PM esclareceu tudo. Pela minha parte, juro que não percebi que esclarecimentos ele deu para além de se justificar de cada vez que saiu uma notícia a desmentir o que ele havia acabado de “esclarecer”. Continuam a dizer que não é possível pedir a uma pessoa que abdique dos bens, das empresas que tenha assim que assuma um cargo político. Creio que foi o Rui Tavares que explicou naquele debate na AR - imagino que poucos tenham visto porque a nossa comunicação social só dá voz a partidos pequenos se forem da extrema direita radicalmente xenófoba, e criminosamente racista - que poderia e deveria ter feito como fez o recém empossado PM do Canadá. O homem é só dono e gestor de um fundo bilionário, e antes de assumir o cargo passou tudo para uma gestão independente da qual ele nada tem a ver, ou sequer se relaciona enquanto estiver a desempenhar o cargo. Quando deixar esse cargo, logo torna a tomar posse e gestão daquilo que ficou a cargo da gestão independente. Que fez o nosso PM?
Primeiro diz que passou a empresa para a esposa. E ainda insiste que não há nada ilegal nisso. Apesar disso continuar a significar que a empresa é dele e que recebe diretamente tudo da empresa. A senhora parece ser especialista em educação infantil (perdoem-me se não estou a ser preciso), ou seja, não me parece que seja um pináculo da análise de RGPD ou algo semelhante. Afinal, passou a empresa para os filhos. Um ainda é menor? O outro acabou agora a licenciatura. Imagino que seja um génio, pois só isso explica que uma empresa (a Solverde) que tem advogados próprios, contrata empresas de advocacia especialistas, não actualize os dados de RGPD desde 2022, e tenha pago em 2024 uma avença mensal que acumulou uma bela maquia anual, a uma empresa gerida por um recém licenciado que coincidentemente é filho do PM que é amigo de longa data dos donos da empresa, e que já representou a empresa numa ou mais negociações com o Estado. É isto que querem que acreditemos?
No LinkedIn, rede social onde apenas são admissíveis publicações conservadoras ou liberais e sempre em prol das empresas vejo declarações inflamadas sobre o direito a ter uma empresa e que este país é só invejas e que somos pequeninos - Missing the point completely - porque não aceitamos coisas que são tão simples. É como aqueles empresários que se queixam que não encontram empregados para as suas empresas, porque o subsídio de desemprego é muito alto, e porque há demasiadas proteções sociais, mas depois não são capazes de conceber pagar alguma coisa mais, quando recebem 12 ou mais vezes o salário da pessoa que trabalha na empresa há 10 anos, mas nunca evoluiu. No entanto, perante uma qualquer crise, seja uma pandemia, ou uma guerra, logo correm para o estado exigindo apoios e subsídios para as suas empresas. É como chamar "quiet-quitting" quando os trabalhadores das empresas resolvem sair a horas certas, quando também chegaram a horas certas, e deram tudo no seu horário de trabalho mas dentro das suas funções. Aquele "extra" tão apreciado pelos empresários mas raramente recompensado, acabou por saturar algumas pessoas. Mas depois entrámos em "crise" para ver se a malta abre os olhos e aceita o que quer que queiram pagar.
Nunca vos aconteceu ter um quase-acidente de trânsito porque as pessoas não sabem conduzir em rotundas? Ou porque vão “esquecidas” na faixa do meio de uma auto estrada? Os meus preferidos, no entanto, são os que seguem na estrada com as luzes de nevoeiro ligadas, as da frente ou as de trás, quando o céu está limpo, claro e cristalino. Eu só fico a pensar se enviassem uma daquelas luzes no traseiro, se poderiam ser considerados pirilampos.
Fiquem bem. Cuidem-se.
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