Vladivostock
Fico confuso sobre para que vão servir estas eleições. É plebiscito ao PM, ao PNS, à política, ao que fizeram? Ou ao clientelismo que ambos os partidos que governam? Agora está tudo histérico no PSD pela possibilidade de perda do recém-tacho e no PS já se saliva de novo. Ou talvez não. Devido aos resultados fantásticos obtidos na RA Madeira, o partido do atual governo já descansa pensando que aqui neste canto, "vale tudo menos tirar olhos", desde que se vá fazendo umas coisas, ou mostrando serviço. Mesmo que seja um mau serviço, é serviço.
E o papel da comunicação social? Vão continuar a lavar Ventura todos os dias em cada canal à vez? Vão se limitar a reproduzir narrativas de cada um, sem qualquer sentido crítico, ou vão aplicá-lo selectivamente, como fazem uns de um sector, e outros de outro sector. À esquerda e à direita, pouco se vê de discussão fundamentada. É só "cherry-picking" e o "então, e?" constante de apontar o dedo, ao que o outro fez, ou disse que fez e não fez. Podiam era fazer uma check-list, e ir colocando os pontos, para o pessoal ver a classificação. Mas como a única que o pessoal se interessa é do campeonato de futebol.
No LinkedIn, que eu julgava que se usava para encontrar emprego, faz-se religião política: Ch3g4 / IL, ou a “Extrema-Direita Baixa, e a Extrema-Direita Alta” como eu lhes chamo, em expoente máximo. Do “X” já desliguei há meses, porque além do odor putrefacto das coisas que se propagam por ali, só para os acólitos de cada religião partidária trocarem insultos. Qualquer tentativa de troca de ideias é deitada por terra à terceira palavra escrita. Já nem fotos de gatos se podia publicar que logo aparecia uma criatura a criticar por isto ou por aquilo. No WhatsApp, Telegram, Signal, proliferam grupo destes acólitos onde se acicatam ódios, e cerram fileiras. Não me refiro mais redes sociais, ou mais aplicações de mensagens, para não me cansar com exemplos. Da mesma maneira, e abrigo da deliciosa, inexpugnável e inatacável ‘liberdade de expressão” é fácil encontrar outro tipo de grupo, ou agrupamentos, para onde se tenta recrutar miúdos, graúdos e incautos de toda a espécie. Para os que ainda não viram a série “Adolescence” - não para os que apenas lêem comentários ou títulos de notícias - basta por ali andar um bocadinho para perceber como se chega ao patamar em que miúdos cometem homicídios. Agora, imaginem o que se passa nos outros grupos de gente madura e responsável. E não, não vou dissertar sobre a série, pois é melhor que a vejam com olhos de ver.
Na escola vejo professores e auxiliares que desistiram. Lutam por chegar ao fim do dia. Nos hospitais, médicos, enfermeiros e auxiliares na mesma situação. Aliás, nos hospitais - e por recente experiência própria - parece que agora só com autorização telefónica se pode lá ir. Alternativa? Centro de saúde? Qual? E o pormenor delicioso de no atendimento do hospital nos dizerem que está ali um telefone que se pode usar para ligar. É grátis. Mais delicioso ainda, é nos perguntarem qual o distrito, concelho e freguesia onde estamos. Se para as duas primeiras questões, os meus conhecimentos de geografia ainda davam, já para o último não. A senhora do atendimento socorreu-me. Desliguei, e comentei com a senhora que os meus conhecimentos de geografia precisavam de reforço. Pouco depois, perguntei se já tinha chegado a informação da linha SNS24. Como ela respondeu que o sistema às vezes demora um pouco, eu respondi sorrindo que “os bytes devem ter ido a Vladivostock, já voltam”. Fui logo interrompido, e chamado a atenção que não se deve brincar com a guerra da Ucrânia.
Não sei que expressão eu fiz, mas a familiar doente (não vos vou dizer quem é aqui) que fui acompanhar desmanchou-se a rir. É que eu tenho o defeito de tentar brincar para ameniza as situações, só que neste caso, o tiro saiu mesmo ao lado. Ainda pensei explicar que era sobre geografia, e não sobre guerra, dado o sítio onde fica a cidade em questão. Mas, desisti de esclarecer, dado que a senhora já resmungava sobre os que vêm para ali “armados em espertos”. Provavelmente, fui eu que não estive bem, pois também não tenho andado bem. E desisti.
A pessoa que fui levar ao hospital teve ainda de passar por mais duas triagens, onde repetiu as mesmas respostas às mesmas perguntas. Quem comiao foi e acompanhou a paciente, pensou em contestar porque não usavam a informação dada previamente, mas também desistiu. O objetivo era que fosse vista por um médico(a), e já o estava a ser.
Ao longo dos dias, vamos nos confrontando com situações, questões, em que optamos por “desistir” ou “deixar andar”, porque na maior parte das vezes ponderamos o “deve e o haver” das opções que se nos apresentam, e a de “desistir” começa a surgir demasiadas vezes como a menos má, e a que elegemos.
No supermercado, à espera na fila para a caixa, vejo que ao lado abriu outra caixa ao serviço. Ali a empregada pede aos clientes para passarem por ordem, mas eis que surge um que passando à frente de todos os outros, coloca as suas compras no tapete, despejando ali tudo o que trazia no carrinho, antes que alguém abrisse a boca. A pessoa que estava à minha frente, virou-se para mim, e encolhendo os outros disse “é o que temos”, e resignou-se atrás daquele que a tinha ultrapassado sem dizer palavra.
É a isto que nós entregámos? Desistimos ? Ou fizeram-nos desistir?
Para o próximo acto electivo, os das legislativas, receio que tenham um record de abstenção, na ordem dos 48% ou mais, beneficiando apenas as facções religiosas de cada partido, e os que se mais alimentam do acirrar de fileiras. Pouco conta o bom senso, pouco mais conta do que o dogma de cada religião. Discute-se o perfil individual, e o carácter dos candidatos a PM, em vez de discutir as políticas - é um cliché, eu sei - e se é para discutir carácter, se calhar, podiam discutir os dos candidatos a deputados. É que eu aprendi na escola, que nós temos um regime parlamentar, e não presidencialista, ou primeiro-ministral, e que antes de mais elegemos deputados, e eles é que, em nossa representação aceitam ou não o governo que o líder do partido com mais votos sozinho ou associado, conseguiu obter. Mas parece que não. E já ninguém discute isso. Desistiram todos.
Do outro lado do Atlântico, prossegue a todo o vapor a execução do plano do senhor de tez laranja. Não, não estou a pensar ir lá nos próximos dez anos (no mínimo). Por isso, posso escrever o que penso dele sem temer ser preso à entrada do país. Como já desisti de lá ir… Mas dizia eu, lá daquele lado, continuam a surgir notícias absurdas. Desde a retirada de imagens do avião que lançou a primeira bomba atómica sobe Hiroshima, por motivos de não ser LGBT (!?), à última e que chega a ser divertida, fuga de informação. Ao que parece incluíram num grupo de Signal um jornalista. Acontece que nesse grupo se discutem planos militares e política internacional dos EUA. Andam todos a perguntar se é real ou ficção. É que não apareceu ainda um argumentista, ou escritor que conseguisse conceber o que se está a passar. E ainda há quem discuta serenamente, se alguma coisa faz sentido.
Em tempos onde há informação disponível como nunca houve na história da humanidade, numa altura em que a ciência evolui tanto quanto os registos históricos nos mostram, eis-nos perante a uma era do absurdo.
13.640km
É a distância de Lisboa a Vladivostock. Acho que já desisti de fazer esse caminho.
Fiquem bem. Cuidem-se.
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