Inundação
Inundação
( i·nun·da·ção )
nome feminino
1. Invasão de águas; grande cheia; alagamento.
2. [Figurado] Multidão excessiva.
3. Grande afluência.
"inundação", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/inunda%C3%A7%C3%A3o.
Depois de praticamente quatro meses de tempo chuvoso, eis um pouco de tempo mais estival. As albufeiras encheram-se, assim como, as barragens, e os campos encontram-se como há anos não se encontravam. Propiciam-se tempos férteis na agricultura?
Uma senhora idosa que vive aqui perto, comentava no café esta manhã que “já estava farta do Papa”. Isto a propósito de querer ver as suas novelas ao serão, e os noticiários se alargarem a propósito da morte do Papa Francisco, anunciada no início desta semana.
No fim de semana, tive a oportunidade de ver a entrevista de um comediante auto-denominado de centrista, de nome Bill Maher, a um senhor de nome Steve Bannon. Este, saído da prisão há relativamente pouco tempo - no programa não se entrou por aí, mas foi por “fraude financeira e desvio de fundos” - e além de ter falado bem dos seus “companheiros de cárcere”, prosseguiu com algumas afirmações que apenas surpreendem pelo contexto provido pelo entrevistador, apresentando tudo aquilo como “uma coisa normal”. Por outro lado, assistir aquilo de uma forma séria e crítica - não no sentido religioso que muitos acólitos da extrema-direita fazem - permite-nos perceber muito da sua forma de atuar.
Além de afirmar que a 20 de Janeiro de 2029, Trump será de novo presidente, e de até se ter explorado uma ou outra forma de o atingir, foi muito interessante perceber a perspetiva de que “para atingir o objetivo, vale de tudo”, desde negar evidências, proclamar o maior número de asneiras e alarvidades possíveis, para “inundar a média” e incapacitar qualquer tipo de resposta eficaz. O objetivo claro de incapacitar os “media”, cujo papel numa sociedade democrática passa por fazer escrutínio das afirmações e atuações de políticos, é fundamental no erguer deste tipo de facção.
Um outro dia, tive oportunidade de questionar aquela senhora idosa que se queixava “estar farta do Papa” sobre o que mais ela via na televisão - a sua companhia, pois vive sozinha - e ela queixou-se também de outras coisas. Ao contrário das conversas nas salas de espera de centros de saúde, onde as queixas se parecem mais com um concurso de “quem está mais doente”, neste caso, surgiram queixas de que nas TV só se fala de crimes, e desgraças. Que são uma constante. Será outra inundação?
Quanto mais observo, e penso neste assunto, mais concluo que só por objetivo é que se propaga dia após dia, notícias, debates e reportagens sobre desgraças, e crimes. Quanto mais hediondos, mais debates e depoimentos se tenta obter. Até ao ponto de perguntar a um cego se viu o que aconteceu…
A minha perplexidade, e as minhas questões prosseguem agora no sentido de perceber de que forma poderá a sociedade se defender de quem a quer atacar. Defender de quem quer minar a democracia. Defender de quem quer atacar o progresso, definido por aumento de igualdade de direitos, e reconhecimento à dignidade de minorias. Defender do ódio administrado diariamente nas redes sociais. Como caímos nesta situação?
Carl Sagan - um dos meus autores preferidos - terá deixado testemunho da sua preocupação pela evolução que ele previu para a sociedade americana. E do mundo em geral, eu complementaria.
“Uma das lições mais tristes da história é esta: se fomos enganados por tempo suficiente, tendemos a rejeitar qualquer evidência da decepção. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. A decepção capturou-nos. É simplesmente doloroso demais reconhecer, mesmo para nós mesmos, que fomos enganados.”
In “O mundo assombrado pelos demónios” Carl Sagan, 1995
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