Metamorfose
Em biologia, metamorfose refere-se a uma transformação física significativa que ocorre em certos animais durante o seu desenvolvimento, geralmente de um estágio larval para um estágio adulto, como quando uma lagarta se transforma em borboleta. Em termos mais gerais, a metamorfose pode também referir-se a uma mudança radical na forma ou estrutura de algo.
Tenho de confessar, tal como o comum dos portugueses, que quando me sento atrás de um volante também sofro de uma metamorfose. Enquanto uns gritam furiosamente, buzinam, fazem sinais de luzes, eu sou dos que emito insultos mais ou menos refinados perante determinadas situações, invariavelmente de infração. Procuro manter o volume baixo, para não perturbar quem me acompanha, mas nem sempre é fácil. No entanto, há questões que sempre me confundem.
Trotinetes. Afinal, que tipo de veículo são? São para andar na estrada, nas ruas, ou nas ciclovias? Ou nos passeios? Serão o verdadeiro todo-o-terreno? A que regras de trânsito obedecem? Às dos veículos motorizados, ou às dos peões? Fico muito confuso. Em especial quando circulo na minha viatura atrás de alguém que segue numa coisa destas e de repente resolve atravessar numa passadeira, e seguir o seu caminho no passeio. Não o atingi por centímetros.
Já não me chegavam cruzar com pessoas que entendem a sinalização de trânsito, como meras sugestões de circulação, os que adquiriram a sua viatura e optaram por ar condicionado em vez de “piscas” – é por isso que não os usam, não é? – e agora há este flagelo.
O termo "metamorfose" pode também ser usado de forma mais ampla para descrever uma mudança radical, seja em termos de estrutura, aparência ou comportamento. Por exemplo, pode-se referir a uma mudança drástica na aparência de uma pessoa, ou na forma como um negócio se transforma e se reinventa.
O nosso prezado país assiste, com maior ou menor incredulidade, ao desenrolar de mais uma campanha eleitoral para as legislativas. Não quero dissertar muito mais sobre a palhaçada que os senhores do atual governo têm andado a fazer, ou os teatrinhos de novela mexicana que os indivíduos do partido que maior vergonha tem trazido ao parlamento. O que preferia era que fosse possível às pessoas exercerem o seu direito de voto, de forma consciente e informada. Mas nos tempos que correm, procurar informação, formar opinião, é um luxo que poucos conseguem. Isto não é uma opinião. É um facto. Verificar que temos o país entregue à gestão de agências de comunicação, que se metamorfosearam em “influenciadores” e “gestores de sensibilidades ou perceções”, e que a comunicação social persegue os ruídos de escape das caravanas, qual canídeo sentido à solta na rua, leva-me a crer que não terá sido obra do acaso. É um ataque deliberado e organizado à nossa democracia, e à capacidade que pudéssemos ter de decidir o rumo das nossas vidas, enquanto comunidade. Tornar factos em instrumentos moldáveis para serem percecionados desta ou de outra maneira, promover constantemente a atenção através de ódios, divisões, conflitos, fomentando medos, preconceitos, receios, só pode conduzir a um destino muito negro. Nestas eleições, eu farei a minha parte. Não vou dizer aqui em quem vou votar, mas deixo bem claro em quem não voto.
Não voto em trafulhas vigaristas, não voto em chico-espertos, não voto em gente que mente a cada declaração que faz, que insulta por passatempo, que se vitimiza depois de agredir. Há mais de 50 anos, fez-se uma revolução para nos libertar de uma ditadura que oprimia, prendia, torturava, e omitia o que não lhe convinha. Afirmar que “são 50 anos disto” é uma mentira nojenta, pois além de propositada, esquece tudo o que ocorreu nos 48 anos anteriores. O facto de escolherem as leis que cumprem, e seguirem como se fossem impolutos deveria servir de aviso, mas como se transformaram numa religião, têm seguidores cegos e sem sentido crítico.
Não é questão que tenha ido pesquisar, mas achei coincidência que “A metamorfose” de Franz Kafka tenha sido publicado originalmente em 1915, e em Portugal apenas tenhamos tido publicação traduzida no nosso idioma em 1975. Teriam tido assim tantas dificuldades de tradução?
Outros que seguem o líder como se pertencessem a um culto, parecem ser os do partido do governo. Não é só um partido? É uma coligação? Mal dei conta, confesso. Um senhor que não respondeu ao que se lhe perguntou, que foge à responsabilidade do que andou a fazer, que mentiu deliberadamente sobre a vida de Espinho, e prosseguiu seguindo a batuta do tipo alaranjado lá do outro lado do Atlântico. Se ganhar as eleições vai assumir que foi um plebiscito à sua pessoa e que poderá fazer como o atual presidente da câmara municipal de Oeiras. Mesmo tendo cumprido tempo de prisão, e a lei o permitir, pois cumprida a pena não pode ser penalizado de novo, e bem, o eleitorado mais “evoluído do país” voto nele para dirigir os destinos do município. Têm, portanto, aquilo que merecem. Se reincidir, e a lei for cumprida, será de novo julgado, mas nessa altura os munícipes não poderão se queixar, não é?
Da mesma maneira que, assisto incrédulo às movimentações para prosseguir a privatização da saúde – sim, sou fundamentalista ideológico, na medida em que me choca que alguém ganhe fortunas com a saúde dos outros – e para lançar o ataque à segurança social pondo em causa as reformas que tantos descontaram ao longo da sua vida de trabalho. É com isso que os religiosos iliberais salivam, e os financiadores de quem nos governa, e dos que fazem teatros passando-se por impolutos, sonham. Caçar as reformas para brincarem às finanças. Se esta metamorfose for permitida, estaremos num caminho de retorno muito difícil.
Na mesma linha, vejo que ao longo de todo o espectro de candidaturas uma ausência de abordagem de temas que realmente nos vão afetar a vida nos próximos tempos. Teremos segurança energética ou vamos ter mais apagões e com que frequência? Se faltar água do que nos vamos valer se Espanha fechar as barragens dos rios que nos banham? Estamos mesmo a proteger a nossa ZEE? Aquela que é das maiores do mundo? O que significa reforçar a Defesa e o que é que isso nos vai custar? Mesmo que não existam respostas certas e imediatas para estas questões, saber que quem nos dirige não tem um part-time numa empresa familiar para gerir favores, importa. Saber que quem nos dirige não toma decisões sem pensar, ou gere despedimentos e indemnizações por mensagens de telemóvel (seja qual for a aplicação), torrando milhões nesses processos, também importa. Saber que quem nos dirige não junta para nos representar uma autêntica vara de gente sem escrúpulos, que se dedique a crimes menores, que insulta e agride nas sombras e se vitimiza às claras, que mente 9 em cada 10 sentenças que profere, que se arroga de espírito religioso para difundir mensagens de ódio, que importa ainda mais.
Temo que estejamos a caminhar para uma metamorfose em que quem quer que tente pensar, tente seguir por princípios como os da Carta dos Direitos Humanos, ou da nossa Constituição, se sinta como Gregor Samsa. Vive para trabalhar pensando assim dar meios e providenciando subsistência à sua família, tendo, sem saber motivo, se transformado num ser detestável ou desprezível (seria uma barata?) para se excluído da sua família e do seu trabalho, votado a um destino inevitável, alienado. Impotente perante a velocidade da realidade das comunicações, sensações, ódios e desprezos.
Qual a metamorfose que o destino nos reserva a partir de domingo?
Seja qual for, cuidem-se.
Rod,
16. Mai.2025
Aos três leitores e meio que me seguem, tenho que pedir desculpas por ter estado tanto tempo sem aqui voltar a escrever. Prometo - tal como qualquer político que se preze e que eu não sou - melhorar, e escrever mais amiúde. Mais que não seja, sobre coisas mais ligeiras.
Comentários
Enviar um comentário