País
É impossível parar pensar um pouco sobre o que se tem estado a passar neste cantinho à beira-mar plantado, e fazer uma retrospetiva. Acho que é importante para perceber onde estamos, e como aqui chegámos. E eu arrisco a puxar a cassete até ao início do presente século. Aos tempos em que tínhamos um governo do PS, dirigido por quem veio a ser Secretário-Geral das Nações Unidas. Ainda se lembram? Aquele que, quando confrontado com números, respondeu balbuciando uns números e fechando com um “é fazer as contas”.
Entrou depois um governo de um primeiro-ministro que, assim que lhe soou que havia um emprego melhor na calha, deu o salto. Deixou-nos com outro, conhecido mais pelas presenças em eventos noturnos que outra coisa, e que não demorou a ser deposto por decisão presidencial. Convocadas eleições, o país resolveu dar maioria absoluta a um secretário-geral do PS, que dada a sua personalidade messiânica – no sentido em que se achava a última bolacha do pacote, e agradava a todo o tecido empresarial que o ouvia – sempre me causou alguma suspeita, mas não quis me armar em preconceituoso e fui dando benefício da dúvida, apesar de nunca ter tido um voto meu.
A narrativa de que ele conduziu o país à bancarrota peca por imperfeita, pois apesar dele me parecer tudo menos inocente, não terá sido o único responsável por ter conduzido o país ao pedido de ajuda financeira. Sempre me pareceu uma certa armadilha montada para provocar uma crise, aproveitando a do sub-prime, para nos pôr a todos a pagar o resultado do jogo de casino a que a banca se dedicou. Eu recordo que a União Europeia fomentava o investimento dos países periféricos como forma de combater a crise, e fomentou amiúde que o fizessem também através de endividamento. “A dívida era para gerir” diria aquele primeiro-ministro, não sei se não se apercebia da armadilha que ali estava. Na altura, eu lembro-me de pensar se não seria mais prudente evitar grandes investimentos e grandes obras, por uns tempos, pois a prudência seria melhor conselheira.
A seguir, veio o pedido de ajuda financeira, o empréstimo para pagar as dívidas, e nós a pagar por tudo. Repito, eu não considero aquele, o único responsável. O principal? Direi que sim, a meias com a União Europeia, ou com a Comissão Europeia. Tanto escrutínio com os orçamentos dos países, a propósito da integração no Euro, e não alertam ou impedem coisas estranhas? Incentivaram investimentos, quando se avizinhava uma crise? Uma crise onde os que apostaram contra as obrigações imobiliários desenhadas pelos bancos para encobrir empréstimos pouco virtuosos, se viraram depois para as obrigações dos países, atirando à dívida pública?
Dizem que a maior parte do trabalho de reabilitação da economia portuguesa veio do banco central europeu, quando Draghi – presidente da instituição – sinalizou aos mercados que estava disposto a “bancar” ou a dar suporte à dívidas dos países. Do período da “troika” continuo sem entender a importância dada a outra figura tipo “messiânica” – a do Dr. Passos Coelho, de quem me irei referir como dPC – que mais não tentou fazer do que mudar o país para se tornar mais competitivo à conta de aumento de impostos que disse não ir fazer, e de “ir além da troika”. Mentiu quando disse que não ia aumentar impostos, e aumentou, sabendo – porque Eduardo Catroga representou o seu partido nas negociações com a troika, e dali já se sabia o que viria – que tinha de aumentar. Falhou porque, por muita má que a troika tenha sido – já me explano um pouco mais neste ponto – eles até identificaram um conjunto de debilidades na economia portuguesa. Uma das minhas preferidas é a que se relaciona com certos oligopólios, ou concentrações de empresas ou de poder empresas, que mina a liberdade que se espera numa economia de mercado. A troika assinalou o poder que as grandes superfícies detinham (e ainda detêm) na nossa economia, e o dPC nada fez. A troika assinalou que o sector da energia também não funcionava em mercado, e optou por vender ao Estado Chinês. Havia que privatizar, mas para um outro Estado?
Aqui, tenho de retroceder um pouco mais na história. Durante 47 anos, o país foi governado em ditadura, cuja economia foi desenhada para a criação de grandes grupos económicos nacionais, protegidos de concorrência, facilitados em leis de trabalho e de acesso a recursos – nomeadamente nas antigas colónias em África – e por essa via, mantido sob influência do regime, e influenciando o regime. No período imediato após a revolução de 25 de Abril de 1974, o tecido empresarial acabou desmantelado, ou nacionalizado, muito causado pela passagem do 8 para o 80 em determinadas matérias. Aumentar salários é bom. Mas fazê-lo à tonta, sem considerar o que uma empresa pode dar de lucro, é pedir para acabar em asneira. E muito acabou em asneira. Por outro lado, houve fuga de capitais do país, sim. Houve empresas que fecharam e os donos fugiram do país com os bens, e as empresas não tinham como funcionar, também. Mas, na década de 1985-1995 tivemos à frente dos destinos do país um senhor cujas acusações de ser denunciante da PIDE eu não vou comentar, pois preferi não analisar a fundo, para não me irritar, confesso. Neste período, que muitos consideram o período áureo da nossa democracia, eu vejo como o período das oportunidades perdidas, e do regresso de certas maleitas do anterior regime. Senão vejamos, regressaram os banqueiros, retomaram a posse dos seus bancos, assumiram de novo a proximidade com o poder político, e desenvolveu-se a doutrina da rotatividade entre cargos políticos e empresariais. É olhar para os ministros daqueles governos e ver quantos seguiram carreira empresarial beneficiando das decisões tomadas enquanto decisores políticos. Naquela década, o nosso país abateu frota pesqueira como nunca, ou qualquer outro, e Espanha modernizou e lançou autênticas fábricas de tratamento de pescado em forma de navios de pesca. Enquanto Espanha se preparava para lançar uma rede de alta velocidade, por cá andava tudo preocupado em abrir lanços de autoestrada para cada aldeia, para cada vila, enquanto se desativavam linhas ferroviárias, e se mantinham sem um pingo de manutenção as de ligações principais do país. Na agricultura, vimos Espanha lançar transvases do Tejo para a zona de Múrcia que se transformou no pomar da península. Por cá... o Alqueva esperou.
A seguir ao dPC, eis que surge António Costa do PS, que perdendo eleições depois de ter atirado para fora do poleiro o anterior secretário-geral do PS por “ganhar por poucochinho”, logrou alcançar o lugar de primeiro-ministro da nação, graças a um acordo parlamentar a que a nossa direita tratou de encontrar um nome para denegrir. A Geringonça. É verdade. Quando a direita se junta, é uma coligação, uma junção de interesses, um encontro programático. Quando é com a esquerda, há que insultar e denegrir. Quem estiver atento, encontra o padrão. Naquele que foi, aparentemente, o governo mais bem-sucedido no ponto de vista do eleitorado, o primeiro-ministro usou de toda a sua habilidade para escamotear ineficiências e incompetências do seu governo, ministros e secretários de estado, enquanto capitalizava para si muitas das medidas que os seus parceiros de acordo parlamentar iam fazendo aprovar na Assembleia da República. Conseguiu até se esquivar aos efeitos do processo judicial envolvendo um dos seus antecessores, o famigerado Sócrates. O que “chamou a troika”, e que afinal “era corrupto”, e enganou toda a gente. Toda...? Enfim. Adiante. Passado o difícil e muito complicado período da pandemia da COVID19, o Sr. Costa decidiu dar um golpe palaciano para se auto-derrubar, com o patrocínio de sua excelência, o presidente da república, e nas eleições subsequentes acabou por vencer, beneficiando de uma maioria absoluta. Não demorou dois anos até que voltasse a estar “em gestão” fruto de mais uma aparição de um dos vectores da nossa sociedade. Mas já lá vou, que isto hoje é dia de escrever bastante.
2024 foi ano para eleger novo primeiro-ministro que, desta vez, demorou escassos meses a estar envolvido em escândalos – ou direi casos? – pessoais e políticos. Os seus acólitos dirão que já esclareceu tudo o que tinha a esclarecer, mas, agora que foi reeleito com alguns votos mais, eu verifico que muito não passou de estratégia política para entalar o seu adversário político que liderou o PS depois da saída de A Costa. Costa que, recordemos, abraçou a carreira política na União Europeia e parece estar feliz da vida. Nós por cá, nem por isso.
Para falar do aumento da presença da direita populista – como o comentariado televisivo gosta de chamar – ou extrema-direita neofascista - como eu vejo que ela é – importa recapitular alguns temas subjacentes que eu vejo como contribuintes decisivos. A começar pela Justiça. A nossa justiça, além de cega, como deve ser, é também lenta, cheia de péssimos exemplos – como é que aquele tipo do Habeas Corpus foi juiz? Como? – e, por isso, funciona muito em função do poder dos intervenientes (arguidos e não só) têm, e da capacidade de a empatarem ou agilizarem. Aquilo a que o líder daquele partido populista de direita (vá, estou a ser bonzinho, vêem?) – e que vou passar a referir-me com a sigla VTRJ – tanto vocifera como sendo corrupção, ou por causa dos crimes hediondos, e que termina as frases com agravamento de penas, esquece, ou melhor, ignora propositadamente todos os mecanismos que possam assegurar a clarificação do que é uma coisa ou outra. Não podemos berrar sobre corrupção, e depois trabalhar para uma empresa da área financeira especializada em offshores enquanto se é deputado da nação, e se tem assento em comissões parlamentares críticas para o negócio, não é? Não podemos berrar contra certo tipo de crimes, e ignorar outros como os da violência doméstica, que também estão associados aos outros crimes hediondos que VTRJ tanto fala e que quer agravar penas. Não podemos esquecer tudo o que ele profere sobre imigrantes, sempre os de cor diferentes, e os mais desprotegidos, note-se. Reclama que, estão a roubar trabalho e a roubar acesso a casas, mas não vejo quem queira fazer os trabalhos que eles fazem. Ou melhor, não vejo ninguém a pagar melhor o suficiente para que um nacional queira fazer os trabalhos em questão. Mas disso VTRJ não fala.
Fala de corrupção, como se a forma difusa como assume os financiamentos que recebe, ou como não os assume, e não os comunica devidamente, não fosse em si, uma forma de promoção da corrupção. Atira-se aos beneficiários do RSI como se fossem criminosos, mas não refere que o Estado gasta 1% do orçamento da Segurança Social. Não refere também qual o valor benefícios fiscais para empresas que não repercutem nos vencimentos dos seus trabalhadores, mas apenas para os seus acionistas. Mente despudoradamente sobre tudo e mais alguma coisa, para terminar cada sentença que vocifera com uma verdade de La Palice, e assim, promover na sua claque a sensação de que “até diz coisas certas”. Mas isso seria como se eu dissesse uma série de impropérios, como que se deveria cortar a língua a políticos apanhados a mentir, e que a seguir dizer que encarnado ou vermelho são dois nomes de uma mesma cor. E teria gente a dizer que “até tenho razão naquilo das cores”. E isto leva-me aos outros dois pontos sobre este tema.
Seria interessante ver a comunicação social confrontar VTRJ com aquilo que professa e que difunde, e que o obrigasse a assumir as mentiras que constantemente diz, e que se retratasse por via da confrontação de factos. Se fosse desmentido constante e reiteradamente pelas mentiras que profere, em vez de ser promovido como foi durante os últimos 6 anos por toda a comunicação social. Não percebo porque é que não se confronta VTRJ sobre quem o financia, e como diz defender o que diz, quando é patrocinado por outros interesses. Caso fosse confrontado, seguramente que, não teria tanto sucesso político. Mas agora, caso algum dos órgãos de comunicação social o queira confrontar, não esperemos outra coisa se não o que a doutrina oriunda dos EUA tem professado. Aliás, parece-me bastante claro que, existe financiamento da extrema-direita norte-americana e da Rússia neste partido. Os indícios são imensos, e as coincidências abundam.
Assistir a uma parte do país votar neste partido, e neste senhor, enquanto uns justificam com um “partir a loiça toda” e “revolta por abandono”, não vejo quem procure contra-argumentar que depois da loiça partida terão de comer em cima da mesa. E que se a mesa for abanada, haverá que comer depressa antes que a comida caia. Mas também não vejo os partidos de esquerda a fazer este trabalho. Espero que ainda tenham força para o fazer, pois se não tiverem, assim que chegar a fatura das ações de quem nos governa, e de quem os apoia, irão ser de novo influenciados por esta gente, na medida em que já estarão a trabalhar no próximo ódio de estimação. Quem será? Serei eu? Serão vocês?
Há um provérbio que diz que “quando se vê as barbas do vizinho a arder, é melhor por a nossa de molho”.
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