Estado em que estamos

A Zâmbia foi o primeiro país a declarar-se insolvente após a pandemia. O governo desviou recursos de áreas como educação, sanidade, agricultura para cobrir as obrigações financeiras. Um país que é apenas o segundo maior produtor de cobre de África, e que produzi ainda cobalto, zinco, chumbo, ouro, pedras preciosas (esmeraldas, ametistas), é ainda o 6º maior produtor de tabaco do planeta, além de produzir cana-de-açucar, milho, soja, amendoim, só para assinalar alguns dos principais. Encrustado no meio da África Austral, entre Angola e Moçambique, é mais um daqueles países que me pergunto como é que sofre tanto, e passa tantas dificuldades. Quem ali está a ganhar dinheiro?


Em Lisboa, cidade-dos-unicórnios, continuamos a unicorniar com trotinetes espalhadas por todo o lado, com uma economia baseada na mão-de-obra barata para o turismo e para os serviços conexos, enquanto proliferam pessoas a trabalhar para as plataformas de entregas ou serviços de transporte (Uber, Bolt, Glovo, desta vida). A Carris anda vez mais devagar, mas isso nada importa. Há que faturar, e trazer nómadas digitais (nómada não quer dizer algo em relação a fixar populações? Pois…), e trazer investidores para melhorar o nosso parque habitacional. Sim, porque investidores querem é renovar o parque habitacional para as pessoas lá viverem, não é para ganhar lucros tanto maiores quanto possível no ato de venda. Não.


No médio Oriente, continua um país cujo direito à existência não contesto, mas cujo atuação deveria merecer outra ação, já que atenção tem, mas está desviada. A alguém que decide deixar passar ajuda humanitária, com comida, para depois abater os esfomeados que a alcançam, está apenas ao nível dos predestinados na história, no mesmo patamar dos maiores facínoras. Ainda há hesite em falar de genocídio, ou de crimes de guerra. Parece que a história não lhes ensinou nada. Nem a quem comete, nem a quem passivamente assiste e ainda diz que apoia.

Estive a ler sobre uma polémica que decorre agora no Ribatejo, sobre uma mesquita que se pretende construir em Samora Correia. Pelo que li, trata-se de um movimento religioso de índole muçulmana e que se tem dedicado a profetizar a sua religião renegando toda e qualquer violência. Tem sido inclusivamente acusada por radicais islâmicos de não respeitarem o Islão, visto que são tolerantes e pacifistas. Obviamente, há uma certa corrente política no nosso país que vive e se alimenta do ódio a tudo o que seja diferente e, claro está, defende que não se deveria permitir a instalação de mesquitas pois são diferentes da nossa “cultura” e dos nossos “valores”. 


Falando nos “nossos valores”, sabiam que em 2025 já vamos num total de 17 mortes por “violência doméstica”? Aquela que no país vizinho se chama de “violência machista”… São desses valores que este pessoal defende?


Regressando ao médio Oriente, eu pergunto com que direito alguém me diz que eu não posso advogar que a Palestina tem direito ao seu próprio Estado, à sua própria existência em paz, só porque a maioria dos habitantes ali não aprova a existência de LGBTI+, ou de casamento gay, e então, tenho de aprovar o genocídio que ali se passa? Isto afinal é uma “cruzada” à moda antiga? E então temos que deshumanizar toda uma população porque não acredita nas mesmas coisas que nós no Ocidente, e por isso, temos de as converter? Há algo de absurdo neste argumentaria que me faz imensa confusão.


Já no Irão - onde o regime dos Ayatollahs manda - também somos obrigados a acatar as ordens e o que quer que EUA e Israel nos digam sobre aquele país, nomeadamente sobre armas nucleares. Sim, porque há já 30 anos que o atual PM de Israel avisa o mundo para esta brevidade. De repente, já todo o mundo esqueceu a luta das mulheres iranianas pelos seus direitos, por serem iguais aos homens, para terem o seu lugar na sociedade do seu país, da sua terra. O que faz o Ocidente? Ataque o regime e assim fica mais fácil para eles dizerem ao seu povo que “eles só nos querem destruir e temos de nos defender”. Começa a ser difícil não acreditar em certas teorias da conspiração, porque o que quer esta gente decida, só parece conduzir a mais guerra, e tudo não parece deixar de ser uma luta por poder. Sim, porque se for um regime que maltrate mulheres, ignore direitos humanos, mas… dê lucro ao ocidente, já vai estar tudo bem, não é?


É o estado em que estamos.

Vou esperar pelo término da cimeira da ONU em Sevilha para escrevinhar mais um bocado.

Fiquem bem. Cuidem-se.

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