Neologismos

Neologismo é um fenómeno linguístico que consiste na criação de uma palavra ou expressão nova, ou na atribuição de um novo sentido a uma palavra já existente. Pode ser fruto de um comportamento espontâneo, próprio do ser humano e da linguagem, ou artificial, para fins pejorativos ou não (in Wikipédia).

No país onde há fadas, unicórnios, e outros brinquedos que fazem as delícias de quem gere a comunicação que nos permitem ver, outrora chamada de “comunicação social”, temos a governação entregue a uma adega. Sim, é verdade. Depois da geringonça tão acarinhada pela direita política do nosso país, visto que assim podiam concentrar os seus ódios numa só direção, eis-nos chegados à Adega.


Ao contrário de uma adega, esta, apesar de cooperativa como algumas, não produz vinho. Produz leis, produz ação governativa, produz umas cenas que supostamente serviriam para acautelar o sobressalto do povo votante. Um dos partidos da oposição afirma estar a negociar com o governo, e vai aprovando todas as propostas de lei, a todos os temas considerados “urgentes”.  Enquanto o país sofre com problemas severos de habitação, de saúde, esquece-se dos problemas da educação que talvez tenham sido os que nos conduziram até aqui. 


Um deputado da nação de uma das bancadas que dá suporte ao presente governo manda “outra deputada arranjar um quarto” e a comunicação social chama-lhe “farpa”. Num sítio de salutar relacionamento entre pessoas, este tipo de comentários levava no mínimo um “raspasnete”. Não, não me vou alongar no chorrilho de impropérios que aquela vara que votaram para estar no parlamento do nosso país. Não me apetece chafurdar nessa lama. Qualquer dia o canal NOW ainda faz uma reportagem cheia sons cinematográficos dos filmes de terror e suspense, sobre redes de mariscadores ilegais a tentar apanhar ameijoa por ali.


É certo que “noção” nem sempre é um dom dos educados, mas ajuda. É certo que empatia é algo que nasce mais nuns que noutros, mas a educação ajuda. A educação que informa, esclarece, e ajuda a separar o “trigo do joio” como certos católicos tanto gostam de apregoar. No entanto, parece que o objetivo é manter-nos estúpidos, distraídos e inertes, enquanto fazem o que querem.


Na habitação continuamos inertes a aceitar que tudo esteja entregue às leis de mercado, que mais não são do que uma interpretação para a aplicação da “lei do mais forte”, “do que tem mais poder e dinheiro” e o resto é pouco mais do que “conversa”. Na panaceia do elogio da reforma que as nossas grandes cidades atravessaram “graças à iniciativa privada” ficou esquecido que gostávamos que a habitação digna fosse um direito, mas agora parece ser um privilégio. É ver a quantidade de cartazes publicitários ao longo das ruas e das estradas a agencias publicitárias, com fotos dos vendedores sorridentes. É ter nas televisões privadas e nos seus canais de “informação” programas de especulação imobiliárias disfarçados de arquitetura, interiores, ou “casas de sonho”. É ver nesses mesmos canais comentadeiros a vomitar coisas fantásticas como “pessoas que procuram barracas para morar” com a mesma vontade que eles quereriam uma daquelas “casas de sonho” daqueles outros programas. Como se alguém no seu perfeito juízo optasse por morar numa barraca de higiene precária, sem água, com luz “puxada de um poste”, e sem segurança, podendo viver numa dessas “casas de sonho” ou num apartamento numa das cidades limítrofes das principais.


Na saúde, passámos a aceitar com normalidade o encerramento de urgências que nos é apresentada com a mesma pacatez do estado do tempo. Nos écrans de TV temos os gráficos das urgências encerradas feitas no mesmo mapa da meteorologia. O governo continua a afirmar que está a trabalhar com afinco. Só passou a fazer silêncio para assumir responsabilidades, e a acusar de “preconceito ideológico” quando o pratica com o mesmo afinco.


Já estou a ver o próximo passo, numa notícia que poderá surgir em breve:

“No âmbito do abertura à iniciativa privada, o governo lançou concurso para a exploração do novo serviço do SNS chamado de “UberLance” para transporte de doentes que poderiam ir pelos próprios meios até às urgências, mas como estas estão fechadas, e os doentes poderão não ter como suportar o custo dessa deslocação, o Estado assume a despesa através deste novo serviço. As viaturas terão um dístico “TVDA” que lhes permitirá circular nas faixas de emergências. Os diplomas regulamentares serão publicados em DR logo que a adjudicação do serviço seja feita. A UBER, e a BOLT já se mostraram interessadas em concorrer.” E segue-se uma entrevista sem perguntas difíceis à ministra, e outra aos CEO dos grupos concorrentes.


Mas numa coisa somos todos muito bons. A criar neologismos.

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