Reconhecimento

Quando escrevo isto, assisto nos canais de informação nacionais que o Governo Português está à beira de reconhecer o Estado Palestiniano, pela voz do seu Min Neg Estrangeiros em discurso na ONU. Agora? Pergunto-me eu. Agora que Gaza está praticamente terraplanada, e a sua população num sofrimento sem palavras, vimos nós reconhecer a existência de um Estado? Claro que “mais vale tarde que nunca”, mas eu pergunto-me quais as consequências deste reconhecimento? O que vai o nosso país fazer de diferente do que até agora fez? Vejo o PR declarar que “atual agora é abrir hipótese de dois estados”. Como assim? Antes não havia hipótese? E, o que é que este “reconhecimento” vai mesmo reconhecer? Que estado? Com que fronteiras?


Por vezes faço o exercício de comparar os argumentos entre duas partes em conflito. Mas neste caso, o que realmente me apetece seguir é o rasto do dinheiro. Quem está a ganhar com o conflito? O que está a ganhar com isso? E mais, quais as consequências de alimentar este conflito?


Há uns dias, tropecei na rede social TikTok com uma trend recente entre adolescentes em Israel. Juntam-se uns quantos, pegam num telefone, e um deles liga a um dos seus próprios pais, de forma anónima, e alterando um pouco a voz tentando não ser reconhecido. De seguida começa a brincadeira. Perguntam ao adulto se estaria disponível para doar algum dinheiro para um grupo de crianças órfãs em Gaza. E começa a risada. O adulto responde com alguns impropérios, dizendo - os mais simpáticos - que o(a) jovem deveria procurar ajuda psiquiátrica, pois aquele tipo de pedidos é obsceno no seu país.


Que tipo de país, e que tipo de população está agora num país que além de se ter provado que está a praticar genocídio em Gaza, ainda goza e faz brincadeiras deste tipo perante uma desgraça assim? Fiquei incrédulo e sem capacidade de reconhecimento da espécie humana.

O que também deixei de reconhecer foi outro país. Sob a liderança do seu presidente, assisto incrédulo à queda, ponto por ponto, de todos os fundamentos que julgava definir uma democracia onde me reconheceria a viver. Bom, a viver não diria, pois sempre me fez imensa confusão à cabeça aquela ideia peregrina do "direito a ter armas", como se vivessem todos num estado de faroeste, onde índios vinham "roubar as terras", quando na realidade parece que a coisa foi um bocado ao contrário. Mas adiante, separação de poderes, liberdade de expressão, liberdade de informação, qualidade de informação, entre outras coisas, estão a cair uma por uma, perante a letarse do seu povo. Não sei se aquele país caminha para uma autocracia ditatorial, para uma guerra civil, ou se vai escapar e regressar ao que nos habituámos ser normal. Nem sei se alguém saberá.

Mas será bom reconhecer os sinais que conduziram a isso. Que diz o adágio popular sobre ver "barbas do vizinho a arder"?

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