Zeptosegundo

Ainda não consegui determinar o que talvez apenas os historiadores mais experientes conseguirão. Aquele momento em que na nossa história recente perdemos o sentido de comunidade e de senso comum, e entrámos neste desvario egoísta, nesta espiral de narcisismo absurdo, da emancipação do “eu” em que toda a sociedade ocidental, aquela cuja bolha partilhamos com vizinhos, amigos, cônjuges, filhos, pais, avós e netos.


Desde quando passou a ser correto e insancionável uma pessoa comportar-se como um escroque, ou um pulha, e seguir sorrindo. Desde quando, nós como sociedade passámos a permitir que tudo seja arma de arremesso, tudo seja pessoal, tudo seja ofensível e ofensivo. Desde quando, nos demitimos de exigir dos poderes da nossa sociedade que cumpram o que devem. Justiça que mal se executa, Executivo que não planeia, Legislativo que se enleia, Presidência que só influencia mas não se sabe para quê. E a comunicação social, que deveria esgrimir argumentos, descascar discursos. A ascensão das redes sociais, consequência do lançamento da internet e da sociedade da informação, mal acompanhada por poderes restritivos e de controlo, trouxe-nos até aqui. Ao que talvez seja outro momento crítico da nossa história recente.


Refiro-me à ascensão meteórica da IA com toda a sua panafernália de potencialidades. Já proliferam pela internet, e pelas redes sociais, toda uma panóplia de fake news com acusações, e histórias completamente falsas, mas sustentadas por imagens produzidas por IA. Será que alcançámos o ponto em que todos os crédulos que andaram a engolir todas as patranhas que andaram a espalhar para não se quererem vacinar, nem aos filhos - com consequências imprevisíveis mas nefastas para a saúde de todos - ou que escolhem o partido em que votam através da mensagem mais curta, direta, e limpa de escrutínio para poderem engolir e ficar descansados(as)? E se toda esta evolução tecnológica resultar numa implosão de poder? Em que ficamos? 


Numa era em que parece termos avançado tanto em ciência e em conhecimento, continuamos dependentes daquilo em que as pessoas acreditam. Parece um contra-senso. Em que zeptosegundo isto aconteceu?

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Tangentes e secantes

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte II

Pura ficção – A vida de Adriano – Parte VII