Suspiro
Um suspiro pode ser uma respiração prolongada expressando dor, prazer ou emoção, ou um doce feito de claras de ovos e açúcar. No sentido físico, temos que uma respiração profunda traduzida por uma inalação e exalação, que pode indicar alívio, cansaço, dor ou outras emoções. No sentido figurado, significa um lamento ou um gemido, com uma expressão de pesar, tristeza ou sofrimento, muitas vezes acompanhada por um som.
Nos tempos que correm, dominados pelas redes sociais, tudo se demarca em trincheiras. Toda e qualquer questão ou conversa se divide entre os que estão contra e os que estão a favor. Pior ainda, esta demarcação passou a acumular toda e qualquer questão. Eu, tenho-me por ser alguém que procura factos e informações antes de se pronunciar sobre os assuntos, salvo aqueles que mais tempo de pensamento me têm detido. No entanto, sempre que há esta confrontação - em especial, ou quase em exclusivo, nas redes sociais - dou por mim a suspirar. A respirar fundo de forma controlada para não encetar numa resposta.
Ainda no âmbito das redes sociais, tenho encetado em alguns diálogos com familiares e amigos, mas de resultado quase sempre igual. Sempre que apresento factos, estatísticas ou dados reais, logo recebo uma de duas respostas. Ou o "isso não é bem assim, porque esses dados são manipulados", ou "tu não passas de um esquerdalho enleado na propaganda". Ou então, e esta é de antologia, que "esse tipo desse programa não passa de um espertalhão que anda a faturar para entreter os parasitas da sociedade que não fazem nada da vida e só vêem programas como o dele"... Páro a conversa, e suspiro.
Passo nos canais de notícias, e à medida que vejo que estão em publicidade, ou a promover debates com os comentadores residentes, suspiro e mudo de canal. Fico a pensar em que momento deixámos de ter direito a ter notícias, de forma clara, verificada e inequívoca sobre as coisas que se vão passando. Alguns até se dão ao trabalho de apresentar reportagens com sonorização de filmes de suspense e crime, só para adensar mais o ambiente. Num dos casos, e devido a proximidade geográfica, e por um daqueles assuntos que sigo há décadas, assisti mais um pouco, e confesso que, me causou uma gargalhada de tão idiota que me apreceu o esforço em mostrar a gravidade da questão. Pensei, depois de me passar o assumo cómico, que haveria imensa gente influenciada por aquilo, e que estava a engolir o isco, o anzol, e a linha quase até ao carreto. E, suspirei.
Nas redes sociais, vejo que recebi uma mensagem de uma antiga colega de trabalho, a comentar que viu aquela reportagem e me perguntava como é que eu conseguia sair à rua sem medo, pois se tudo aquilo se passava perto de eu vivo. Respondi:
"- Bem, sair à rua, sem ter música de filmes de fantasmas nos phones já é uma ajuda!"
Foi então que, recebi mais umas das mensagens típicas dos influenciados da internet:
"- Vai ver! qualquer dia acontece uma desgraça com esta gente, e depois vai me dar razão"
E suspirei, para não mais responder.
Um suspiro pode também ser um pequeno orifício, um buraco, feito em tóneis ou barris para retirar amostras de vinho.
Partulhando aqui mais uma devaneio pelas redes sociais, passei nesta semana pelo LinkedIn. Para quem procura emprego, alternativo ao que tem, ou por estar "à procura de oportunidades" acaba por ser um ponto inevitável onde estar. Mas esta rede social, deveria ser também objeto de estudo. A quantidade de comentários e publicações que mais não são de insulto a quem seja de esquerda, ou ataques pessoais, e de todo um chorrilho de alarvidades que se torna difícil distinguir o que valha a pena ler. Certa vez, cometi o crime de "lesa-pátria" de comentar uma publicação de um gestor de empresas que se queixava da falta de pessoal, perguntando se já tinha experimentado aumentar o salário da sua equipa e tentado contratar alguém pagando um pouco mais do que se propunha naquela altura, mas ligeiramente menos do que pagaria depois de aumentar a sua equipa, e levei com uma montanha de respostas na publicação e por mensagem direta que, cheguei a pensar se valeria a pena mostrar ao meu advogado numa perspetiva de abrir um processo ou fazer queixa crime. Ao que parece, as "leis de mercado" não se aplicam ao "mercado de trabalho" e, "se continuar com este tipo de comentário nunca irei arranjar emprego em qualquer empresa", e "que é melhor pedir emprego aos amigos esquerdalhas". E, suspirei.
Dei por mim, a ser um daqueles que passa pelas redes sociais da forma mais incólume e inócua possível. Já que por ali é impossível conversar, reservo-me ao direito de guardar o debate para os momentos em que esteja cara a cara com a pessoa que queira conversar civilizadamente sobre qualquer assunto. Estarei errado? Admito. Deveria ser mais militante das causas que importam? Admito. Deveria andar pelas redes sociais a desmascarar cada "fake", cada comentário impróprio? Ou talvez começar a ter mais atenção às redes que uso, e a que dados permito que eles acedam?
Pausa para suspiro.
Na música, um suspiro é referido como sendo aquela parte em que subitamente o som pára, e apenas o silêncio fica. Eu sou dos que aprecia o silêncio. O silêncio mais prolongado. O silêncio das palavras, ou o silêncio que a natureza profere. Mas confesso que, também não resisto a um suspiro. Aquele doce de merengue, feito com claras de ovos batidos em açúcar, seja servido macio ou assado no forno para obter uma cobertura crocante. É tão bom...
Suspiro.
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