Capicua

Regresso a este pedaço da rede larga mundial - uma péssima tradução para World Wide Web - para tentar recuperar um hábito de escrita que em tempos tinha, mas desta vez, deixando aqui rasto.

Em primeiro lugar, não quero saber, quase tenho raiva de quem saiba, por questão de preguiça e de achar que não vale a pena, de reality shows, e de coisas absurdas que neles se passam. Não vou dispender mais linhas sobre esse assunto.

Quero debruçar-me um pouco sobre a nossa comunicação social informativa. Os canais de notícias, como eles se anunciam.

Serei apenas eu a olhar para aquilo como cada vez menos informação, e mais regurgitações de correntes de poder que lutam por convencer o público em geral das suas ideias, em prol dos seus objetivos? Ver uma jornalista perguntar a um comentador sobre se já houve esta ou aquela manobra militar, parece-me um absurdo. Mas não é a jornalista que tem o dever de informar? Agora limita-se a dar palco, com muito pouco contraditório, a quem debita a verborreia da tese da sua claque? E querem ser levados a sério?

A escolha das reportagens que passam, ora a mostrar o ponto de vista de apenas um dos lados de um conflito, das suas teses, das suas propagandas, significa uma capitulação daquilo que é, e do que deve ser o jornalismo. Conhecido como o quarto poder, porque além do legislativo, do executivo e do judicial, este último peca por falta de agilidade na intervenção sobre o que não é correto, ou que seja ilegal.

Aqui, andamos embalados entre esquerda e direita - como se alguém ainda soubesse o que isso é - tal como uma capicua. Em que a sensação que fica, é que seja em direção fôr, o número que se lê significa o mesmo. Mas aqui é que está realmente o engano. O logro.

Quando uma das partes desata a puxar a narrativa de tal forma para o seu lado, aqueles que tentam ficar ali no meio, seja no meio da ponte (como os tolinhos), seja em cima do muro (como os que se querem parecer bem com todos), seja os que procuram apenas seguir o seu bom-senso, rapidamente é apelidado como radical do "outro lado". Factos é coisa de somenos importância. Importa é impôr a sua narrativa no espaço público. Seja nas TV's, seja nas redes sociais. Redes sociais que são aquela coisa que se diz dirigida por um algoritmo. Mais não passa do que um estratagema para ocultar o real interesse de quem nelas manda, ou de quem delas é proprietário, para prolongar o seu modelo de negócio.

É como certos reality shows. Já perderam há muito o factor "novidade" e apostam no factor "impacto". Baixando o nível para lá do que poderíamos imaginar, em prol das audiências. Pensando bem, o que mais me espanta é a inacção do público perante isto. Apesar de eu não ver a coisa, e não saber, nem querer saber, dos detalhes, apenas sei que é mais uma cena sórdida permita ou incentivada em prol de audiências e de faturação associada à publicidade. Espanta-me que não haja um movimento de boicote às empresas que fazerm publicidade naquilo. Se existisse qualquer assomo de consciência cívica, era o mínimo que se faria.

Tenho que confessar que, quando em tempos se fazia política de boicote a esta ou aquela personalidade, por causa de uma ou outra declaração, me fazia alguma confusão. Sempre pensei que deveria haver consequências e responsabilidade sobre o exercício da liberdade de expressão. Não é porque o caminho para minha casa em linha reta demora menos tempo, que eu vou ignorar as regras de trânsito.

No entanto, no espaço público isso parece ser apenas uma sugestão. Para acicatar aquele que está no campo político oposto, atiramos com tudo. Isto parece uma capicua. Lê-se para um lado é uma coisa, e para o lado é a mesma coisa.

Sabemos que uma capicua é um número, data ou sequência de algarismos que se lê da mesma forma da esquerda para a direita e vice-versa.

O problema é quando um dos lados está a puxar de tal forma para o seu lado, que o pêndulo parece ter ficado ali preso. As consequências disso traduzem-se em coisas que poucos comentadores sintetizam, e explicam ao telespectador comum. Quando o fazem, parecem-se com acólitos de uma das partes em confronto. E no meio disto, ninguém tem juízo.

No que deu a falta de educação real. No que deu terem transformado a educação das gerações mais novas em produtos para consumo industrial e empresarial, como se isso fosse a única coisa que importa. Temo que, iremos bater no fundo com estrondo, antes de recuperar o caminho de progresso e de evolução da espécie. Pior, não sei até que ponto iremos sobreviver a tudo isto.

Seja para que lado leia esta capicua, o resultado não augura nada de bom.

Boa sorte.

Rod.

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