Idiossincracias

Termina agora mais uma semana desta década que se assemelha quase a um ano, tal é a quantidade de coisas que vão acontecendo. Começou com um debate que, ainda ponderei ver, mas depois dos primeiros feedbacks e mini-vídeos, percebi que seria uma perda de tempo. Combates de pocilga nunca são limpos, nem honestos, nem trazem qualquer tipo de valor acrescentado. Só servem para chafurdar. Uma das definições de idiossincracia é da medicina, e define-se pela predisposição particular de um organismo para reagir de maneira individual a um estímulo ou agente externo. Neste caso concreto daquele debate, a minha é optar por não ver mais, nem sequer perder tempo a ler o que sobre ele se escreveu.

Não demorou muito tempo até que a TV nos presenteasse com mais um momento inolvidável. Continuo a recusar-me a escrever (ou até falar) sobre o caso do reality show - tipo de programas que a mim só me escapa o motivo pelo qual não leva à retirada da licença de transmissão - mas vejo-me na contigência de ter de escrever sobre uma das declarações que a "estrela da estação" proferiu numa destas manhãs. Dizer que foi uma infelicidade, é pouco. Dizer que foi descontextualizado é desonesto. No entanto, a liberdade de expressão atualmente empregue parece ter perdido o sentido de responsabilidade sobre o uso dessa mesma liberdade. Sempre que os limites da utilização de liberdades se ultrapassam, é parte do processo de formação da vox populi. Daquilo que em termos de comunidade passamos a julgar como "normal", ou como aceitável. Idiossincracia também se define pela característica peculiar do temperamento ou do comportamento de uma pessoa ou de um grupo, e como a maneira de agir especifica de uma pessoa. Neste caso, tenho imensa dificuldade em encontrar forma de classificar a idiossincracia da dita "estrela da estação". A minha consciência só me diz que é uma atitude profundamente desprezível, mas é dessa postura que o brilho emana na nossa TV nacional. É como uma luz que ofusca um animal que se apanha a atravessar a estrada e não se mexe, assustado, perecendo atropelado pela viatura que ali circula.

Entretanto, a idiossincracia do outro senhor do outro lado do atlantico continua o seu caminho. Desde o passo em falso, em que se fez passar por uma entidade religiosa suprema, até ao "beef" com o seu "representante na Terra", continuamos presenteados com um argumento digno dos filmes mais exóticos e bizarros. Mas é a vida em que estamos. Coincidência foi ter tropeçado numa notícia que refere que o principal accionista daquele canal de TV que tem reality show que me dão asco, e tem programas da manhã que asco me dão, ter sido nomeado para presidir à FLAD, dadas as suas amizades com a embaixada do país que dá significado à FLAD.

Se o que vai passando nas TV's, os programas matinais, a forma como dão notícias, vão formando o carácter e a idiossincracia de quem assiste, talvez fizesse algum sentido temperar a liberdade de informar, de se expressar com responsabilidade. A meu ver, a rapariga cuja vida foi destruída por um grupelho de pulhas sem carácter, poderia apresentar um processo civil por danos morais à dita estação de televisão. No meio disto tudo, é a vítima. E no nosso país, as vítimas "põe-se a jeito", e acabam repetidamente a ser violentadas por uma estranha forma de revisitação de crimes. 

Pode também ser outra idiossincracia, um autêntico flagelo da sociedade que são as pessoas que andam pela rua, em transportes públicos, ou estão em outros espaços públicos a falar ao telemóvel recorrendo à funcionalidade da alta-voz. Eu percebo que, quando queremos que mais alguém assista ou participe na conversa, se accione tal funcionalidade, mas o que passa na cabeça das pessoas andar pelo meio da rua com o telefone em posição horizontal, na mão em posição de mendigo? E nos transportes públicos? Que tenho eu a ver com a conversa da Marina que se chateou com a Anabela, e agora não sabes o que fazer no aniversário? O que é que eu posso ajudar nisso?

Temos mais variantes deste flagelo. Os que maior confusão me provocam são os que estão a conduzir e levam o telemóvel naquela posição e vão a conversar. Será que a GNR ou a PSP nunca apanharam ninguém a conduzir assim e lhe aplicou coima? Em que momento definidor da nossa sociedade isto passou a ser coerente ou aceitável? Alguém consegue detetar?

Cuidem-se, ok? 


"idiossincrasia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2026, https://dicionario.priberam.org/idiossincrasia.

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