Marco

Um marco é um sinal físico (pedra, estaca, pilar) que demarca terrenos, limites territoriais ou distâncias.

Procuro detectar na linha do tempo, o momento em que a humanidade se toldou na direção onde agora se fixou. Não será toda a humanidade, pois nós no ocidente vivemos numa bolha, em relação ao resto do mundo, que nos desprende do que por lá se passa, e nos põe a pensar nas coisas como se todo o mundo fosse este pedaço onde vivemos.

Nós que vivemos neste cantinho à beira-mar plantado, sentimos fazer parte de um mundo. O primeiro. Aquele onde tudo se passa, onde tudo se define, e onde a ciência mais avançou. É uma coisa bizarra sentir isto, e assistir a tanto pensamento retrógado. A tanta sobranceria sobre outros. A tanta desfasatez.

Uma personagem a que muitos já chamam de louco, mas que na realidade não passa de um:
- autocrata - tudo o que faz é em prol do seu exercício de poder

- pedófilo - não me venham com coisas, mas a um tipo que gosta de se passear por salas onde "misses" trocam de roupa, e fazia sabe-se lá o quê com o Epstein, não pode ser chamado de outra coisa 

- violador - comprovado em tribunal

- vigarista corrupto - sim, porque não vale a pena mudar o nome às coisas para deixarem de o ser. O tipo enriqueceu mais num ano de mandato que todos os outros presidentes juntos (!?). Artimanhas de todo o feitio, terminam sempre com mais dinheiro no bolso dele, no da sua família e no dos seus amigos. 

A diferença para o tirano que as TV's nos ensinaram a odiar nos últimos é que não se lhe conhecem acusações de pedofilia ou de violação... mas a este ainda chamam de aliado.

Um aliado que leva a vida a fazer bullying aos países que têm sido amigos. Um aliado que leva a vida em guerras e a puxar os seus aliados para as suas guerras.

Aos que por cá, neste cantinho à beira-mar plantado, eu digo: são cúmplices. A aceitação, seja por tacitismo, por estratégia, por "real politik", além de absurda apenas a vocês vincula. Governo atual, perante a subserviência enquanto cada vez mais países europeus começam a abrir os olhos e a tomar medidas concretas - excepção à Espanha que andou sempre com os olhos bem abertos - apesar dos infiltrados que permitiram ter e manter na União Europeia, apesar de terem passado a falhar no cumprimento dos tratados comuns. 

Nunca entendei, nem me irão fazer entender, que quando um dado país começa a tomar determinadas medidas que vão contra a democracia, o Estado de direito, a independencia dos diversos ramos do Estado, deturpação da comunicação social, não se tomam medidas imediatas. O que se passou na Hungria, e que serviu de "livro de instruções" aos conservadores americanos, deveria ter sido objeto de imediatas medidas. Perda de direito de veto nas decisões UE, só para começo de conversa. Na falta de defesa concreta e real, a UE perdeu-se em si própria, e os seus líderes perderam a capacidade de fazer alguma coisa. Ou se arrepia caminho rapidamente, ou temo pela continuidade da UE, e isso, trará ao nosso país um manto bastante negro.

Aos partidos que andam a apoiar aquele tipo lá nos EUA, a questão é ainda mais perniciosa. Arrogam-se no direito de rasgar a Constituição, esburacando todo e qualquer termo que defenda os cidadãos por igual. Racistas convictos, oportunistas profissionais, políticos que não tiveram lugar noutros partidos quando ainda se usava de bom senso, e que afinal, já estão a demonstrar ao que vêem. Aos que os apoiam eu já não desculpo com "ignorância", ou "revolta social". Lamento. Mas se até agora ainda vivem na ilusão, é porque algo de muito errado se passa nessas cabeças, lamento. Algo de muito distorcido passou a existir nessas mentes, e nessas consciências.

Falar com gente assim, requer uma dose industrial de paciência. Semelhante à que se usa para falar de religião com fanáticos religiosos. Vivem num dogma que lhes foi criado e ao qual se amarraram com a vida. Toldados pela semente do medo, temem tudo o que seja diferente, abominam o que não esteja de acordo com o seu ideário.

Mas a falha maior, eu atribuo à Educação. Educação pelos pais, Educação pelo Estado nas Escolas. Fruto das consequências da crise da dívida soberana que se abateu sobre o nosso país sobre a forma de flagelo, a educação passou a ser uma benesse apenas ao alcance dos priviligeados. Apenas esses puderam ler, aprender, escrever um pouco também. Apenas esses poucos conseguiram suster o ataque das redes sociais, dos algoritmos, e procurar um pouco de sanidade mental.

Aquela crise, ainda hoje julgada por muitos como provocada pelas decisões dos governantes nacionais, terá tido, a meu ver, origens mais profundas, ou talvez menos claras. Quando recordo dos eventos da altura, lembro-me de algures em 2006 ouvir nas notícias que a UE estava a promover financiamento (ou deverei dizer endividamento?) dos países para investimento. Para promoção da economia e do seu crescimento. Com juro baixo, dinheiro fácil, logo se desatou a lançar obra. Ou mãos à obra. Ou mãos ao dinheiro das obras.

Como sempre, quando há dinheiro fácil, vem um período de asneiras. Na altura fazia-me confusão, como se lançam obras, sem um planeamento geral, uma visão. Antes de fazer qualquer coisa de dimensão, ninguém pergunta onde estamos, e para onde queremos ir? Mesmo a nível europeu, tudo se parece resumir a formas de consumir recursos. As maiores discussões fazem-se sobre a repartição de fundos. Não há desígnios, não há missões, não há projetos a longo prazo.

Quando rebentou o escandâlo da banca nos EUA, derivado dos jogos de casino a que se tinham dedicado (2007-2008), para segurar todo o sistema financeiro, os diversos Estados viram-se forçados a ir a jogo, salvando bancos um pouco por todo o lado (2008-2009), EUA e não só. Com isto, o nível das dívidas públicas subiram e os mercados fizeram o seu preço querendo o dinheiro de volta com juros mais caros. De seguida, rebenta a crise das dívidas soberanas (2009-2010), que por cá, teve como corolário o pedido de resgate em 2011.

Seja ao abrigo de intervenções externas, ou para defesa perante tal eventualidade, os diversos governos optaram por políticas restritivas, de consolidação orçamental, cortando em tudo quanto fossem serviços do Estado. O argumento de "viver acima das possibilidades" foi atirado à exaustão. Recordo na altura de ter pensado que "eu sempre fui reservado com despesas, sempre vivi do rendimento mensal, agora eu é que vivi acima das minhas possiblidades? Eu que só pedi empréstimo para comprar casa?".

Figurativamente, representa um acontecimento importante, uma referência cronológica ou um ponto decisivo num processo, como um "marco histórico".

Qual terá sido o marco que despoletou a cadeia de eventos a que hoje assistimos? À existência tanto domínio por ignorantes? Como é que atingimos a um ponto em que a negação da ciência é moda? Como é que atingimos um ponto onde a malvadez, a vilania, são moda? Como é que atingimos um ponto em que permitimos e aceitamos o preconceito, o racismo, a violência contra as mulheres, a violência contra minorias? Em que momento, passou a ser aceitável considerar "liberdade de expressão" mentir, propagar mentiras, distorcer realidades para prejuízo de um grupo de pessoas?

Se o marco de 2007-2008 foi o que nos conduzir até aqui, noto no horizonte próximo um marco semelhante a aproximar-se.

Se aquela crise começou por ser bancária, principalmente por investimentos de risco, e investimento mal fundamentados, verificamos que desde há uns anos a esta parte uma pequena diferença de intervenientes neste jogo, e uma grande diferença nos montantes envolvidos.

Hoje em dia, passou a ser comum vermos entidades chamadas "capitais de risco" a comprar e a vender empresas. Seja qual for o mote, comprar para vender em pedaços, comprar para reestruturar gestão e vender mais caro, o objetivo sempre foi o que ganhar dinheiro investindo em algo que se sabia arriscado. Evidentemente, os riscos gerem-se, analisam-se, a fim de se tomarem decisões sobre o caminho a tomar. Estas "Capitais de Risco" para se financiarem, criaram "fundos" como projetos onde investidores poderiam colocar o seu dinheiro, e ao fim de alguns anos (10 a 12 anos), receberiam o resultado do seu investimento, além de o recuperarem.

Tudo isto é muito bonito, se apenas se cingisse a recuperar empresas, ou a encontrar novos negócios a despontar e levá-los até uma fase posterior do seu crescimento. É aqui que entra a história da IA. A IA é um negócio que requer investimentos avultados, infraestruturas massivas, centros de dados que consumem energia e agua como cidades inteiras, e é uma área cujo rumo ainda está por definir. A grande diferença, além dos montantes envolvidos, é a rapidez com as coisas acontecem. O que ontem era "state of the art", hoje é comum, e amanhã estará ultrapassado. Por outro lado, o que parecia ser uma aposta certa ontem, hoje parece que não é bem assim, e amanhã estará errado. De tudo o que se prevê, o ponto comum é que apenas alguns irão suceder, poucos resistirão, e muitos irão ficar pelo caminho.

A minha questão até se torna bastante simples. Se apenas alguns vencerão, e ficarão para contar a história, o que acontece aos outros? Aos biliões que neles foram investidos? Perdem-se? Será preciso um novo "bailout"? Quem vai pagar tudo isso? Eu? Eu que vivo "acima das minhas possibilidades"? Acho que vão ter que arranjar outra desculpa, porque essa já não cola. Ah! Há uma guerra... esperem lá... a guerra que um pedófilo, violador, vigarista corrupto despoletou a meio de negociações com o país com quem negociavam? É para isso a guerra? É que eu já a estou a pagar, e não tenho nada a ver com isso.

Parece um marco. Soa a um marco. Tem indícios de ser um marco.

Alguém vai ter que contar esta história muito bem contada.


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