Pura ficção - A vida de Adriano - Parte I

Adriano tem 50 anos, e há 6 que ali vive. Cuida do terreno que herdou de um tio, que já o havia herdado dos seus pais, avós do Adriano. Nesse terreno conseguiu montar uma estufa de fruta, cuja colheita se transformou no seu sustento. Conseguiu ainda montar um espaço para fazer uma criação de galinhas poedeiras, que lhe dão um extra de rendimento, vendendo ovos aos vizinhos do monte, e à mercearia da aldeia ali perto.

Entre o pé de meia que amealhou enquanto trabalhou em multinacionais, que tem a render em algumas aplicações no banco, e esta atividade, Adriano encontrou o seu equilíbrio. Após anos de trabalho, de stress, de problemas profissionais, e problemas pessoais, ele definiu um objetivo na vida. Encontrar sossego e equilíbrio. Mesmo que, a custo de alguns luxos a que se habituou ao longo da vida, e que tomou como "conquistas".

Com o confinamento da COVID, a pressão laboral extremou-se, e a responsabilidade começou a parecer-lhe bizarra. Ele sempre aceitou o contrato de vida, onde teria que dar o máximo no local de trabalho, para obter reconhecimento, melhor salário, e quiçá, algum estatuto. Mas quando tudo se extremou, ele começou a duvidar deste contrato, e a olhar para o que tinha conseguido.

Conseguiu dois divórcios, e acumulou perda de cabelo, e estilo de vida sedentário que - pensava ele - o carro de serviço, o telemóvel topo de gama, já não lhe pareciam compensar com o salário que recebia. Os amigos com quem se encontrava, perdiam-se amiúde em discussões politicas sem sentido para ele, ou apenas queriam saber como ele estava no trabalho. Mesmo os amigos com quem nunca tinha trabalhado, também acabavam por conduzir a conversa para o mesmo sentido. O seu papel no trabalho, com quem mais lidava, as coisas que aconteceiam. Adriano não sabia se era pela paixão com que contava certas histórias, de desafios e problemas que ultrapassou, que motivava alguns a encetar conversa com ele. Mas Adriano começava a sentir um vazio. Ou melhor, que estava numa rotunda, como ele certo dia confessou num jantar com antigos colegas de curso. Andava à roda e não saia. Até que um dia, decidiu sair daquela rotunda.

O seu dia a dia agora, resume-se a umas horas de trabalho na estufa, leitura no sofá da sua sala, ouvir música, e bastante tempo sozinho. Dias há que até se esquece de ligar a TV, onde dá preferência às notícias, para saber o que se passa no mundo, pois pouco mais interesse lhe desperta. Ao por do sol, aproveita para dar uns passeios pelos montes em redor, apreciando as vistas, e o que mais se lhe cruze pelo caminho. A casa recuperada onde vive, não tem grandes luxos. Uma sala partilhada com cozinha, um quarto, e uma garagem onde não estaciona o carro, e usa como zona volante, ora para guardar materiais da estufa, ora o grelhador que coloca no quintal quando recebe visitas, ou quando lhe "está mesmo a apetecer" grelhar peixe, e não quer sair de casa para ir a um restaurante.

Apenas as visitas de familiares, durante o verão ou pela altura do natal, lhe perturbam a rotina.

... tbc

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