Pura Ficção - A vida de Adriano - Parte III

Adriano regressava do almoço com alguns dos vendedores com que trabalhava. Haviam discutidos alguns assuntos de trabalho, e ele estava preocupado com algumas coisas e tomava notas sentado à secretária. Eram assuntos para seguir nos dias seguintes. 

O telefone toca, interrompendo-lhe o raciocínio, e atende, como sempre, após o segundo toque. Era timbre de a empresa nunca deixar o telefone tocar mais que duas vezes, e ao atender proferir prontamente o nome da empresa, o seu próprio nome seguido de um bom dia ou boa tarde. Adriano já o fez tantas vezes que só quando a voz do outro lado do telefone, soltando uma gargalhada lhe atira:

- Parece que estás a cantar!

- Olá, Teresa! Como está?

- Ó Adriano, eu já cantei para ti, e não é por ser ao telefone que nos vamos deixar de tratar tu, vá lá, tu és capaz...

- É verdade Teresa. Como estás? Está tudo bem?

- Sim, meu querido, está. Mas eu estou a ligar por duas coisas.

- Então?

- Uma é que as instruções do micro-ondas não vieram. A outra...

- Vou já tratar de te enviar por correio... – disse Adriano enquanto anotava furiosamente no seu caderno, sem deixar transparecer na voz

- Calma... tenho outro assunto

- Sim...?

- Podias vir me trazer o livro de instruções...

- aaah...

- Eu vou estar no lançamento de um livro de fotografias de um amigo na galeria Módulo. Sabes onde é?

- Não... realmente, não sei.

- Edifício Castil, sabes onde? 

- Isso sei!

- É aí. Logo à entrada, na receção, vou deixar um convite em teu nome. Às 19h... ou melhor, um pouco antes se puderes...

- Tudo bem. Eu vou tentar chegar antes para te entregar o livro de instruções.

- E ficas mais um pouco! – disse Teresa desligando o telefone

Adriano ficou a olhar para o telefone, surpreendido, quando um dos vendedores com que havia almoçado o interpela, acompanhado do chefe do departamento (de ambos, por sinal), e ele regressa em pleno ao ritmo de trabalho, e aos assuntos que lhe chamavam a atenção ali.

A tarde passou a correr, com várias chamadas e clientes para atender, vendedores para despachar, o chefe a voltar a chamar, Adriano mal deu conta do tempo a passar. Olhou para o relógio e esboçou um olhar mais aflito. Um dos seus outros colegas de departamento perguntou-lhe o que se passava.

- É que tenho onde estar e acho que vou chegar atrasado. E ainda tenho de ir lá abaixo ao armazém buscar uma coisa.

- Onde é? – perguntou-lhe o colega

- Ali perto do Marquês de Pombal.

- Pede à Gina que te leve. Ela vai para Cascais e passa sempre no Saldanha a apanhar uma amiga que mora perto dela e vão sempre juntas.

- Boa! Vou lhe perguntar.

Depois de combinar com a secretária do seu chefe, correu ao armazém, onde já lhe tinham deixado separado o dito livro de instruções, e regressou na mesma passada rápida ao seu lugar no escritório. Atendeu uma última chamada, e quando pousou o auscultador, Gina estava em pé à sua frente, pronta para sair. Adriano desliga o computador, arruma o caderno na gaveta, onde também coloca um estojo com canetas de diversas cores, e fecha-a. 

Enquanto percorriam a cidade, e Gina enfrentava o trânsito em hora de ponta, Adriano observa o relógio e faz cálculos mentais sobre se ainda chegaria a tempo ou não...

- A que horas “cê tem de” chegar? – pergunta-lhe Gina com o seu sotaque brasileiro vincado

- Às 19h, mas eu queria chegar um pouco antes.

- Fique descansado. Vamos chegar bem a tempo.

- Ok. Obrigado pela boleia. Realmente dá-me imenso jeito.

- Tem de pensar em tirar a carta.

- É verdade. Eu sei. Mas ainda não consegui juntar as oportunidades suficientes – disse Adriano enquanto fazia o gesto com os dedos de um mão em sinal de dinheiro – por isso tenho de aguentar mais um pouco.

- Sim, é importante. Em especial para você que mora tão longe. Do outro lado do rio, né?

- Sim. Na Quinta do Conde... onde o alcatrão mal chegou – disse ironicamente

- Mais importante ainda.

- Eu sei. Mas não sei é se conseguirei conduzir como tu. Descalça... – Adriano havia reparado logo no início da viagem que ela tinha tirado os sapatos de salto e conduzia descalça

- Nem consigo de outra forma. Esses sapatos são uma desgraça.

Quando chegaram à zona do Saldanha, Gina começa a encostar o carro perto do passeio, e depois de buzinar com dois toques, Adriano vê outra figura a aproximar-se e prepara-se para sair do carro e dar o seu lugar. É a amiga da Gina, e como ele sai primeiro diz que é melhor ir para o banco de trás, e assim faz. Quando se senta no banco de trás e fecha a porta, nota que elas se cumprimentam com um beijo nos lábios. Gina olha para trás e coloca o dedo nos lábios, como se sinalizasse um segredo. Adriano encolhe os ombros. Para ele, se elas são mais que amigas é assunto que não lhe diz respeito, pensou. Cinco minutos depois, chegam ao Marquês de Pombal.

- Onde quer que te deixe?

- Onde te der mais jeito. Eu depois vou para onde tenho de ir. Aí mesmo antes da rotunda.

- Mas para onde você vai?

- Ali para a Rua Castilho.

- Eu te deixo lá

- Não precisas – disse Adriano, enquanto coloca a mão no puxador da porta – a sério. Encosta já aí. Eu tenho tempo.

Gina não insiste e encosta junto ao passeio, permitindo a Adriano sair ali mesmo antes de chegar à rotunda do Marquês de Pombal, e dali inicia o seu caminho ao local que Teresa lhe indicou.

Logo que se aproximou da entrada principal do edifício Castil, Adriano vislumbrou a receção e assim que se dirigiu, rapidamente lhe entregaram o convite e indicaram onde se deveria dirigir. Era fácil de encontrar, pois logo viu várias pessoas a conversas numa sala ampla, com algumas cadeiras dispostas em fila, diante de um pequeno microfone colocado um palco que mais não era que um patamar de um degrau.

Com o livro de instruções dentro de um envelope dobrado na mão esquerda, Adriano parou no centro da sala olhando em redor. Estavam várias fotografias colocadas nas paredes. Um cavalete com um cartaz numa das laterais do palco. A certa altura notou que um dos grupos parecia ser composto por gente conhecida. Da televisão, imaginou ele, mas sem saber muito bem de quem se tratava, visto que pouca ou nenhuma televisão ele via naqueles dias. Atores e atrizes, concluiu, enquanto prosseguia na observação do ambiente. Sentiu-se um ser estranho, com o seu fato e gravata típicos de escritório comercial.

Ouviu uma voz atrás de si, que reconheceu imediatamente como sendo Teresa, e virou-se.

- Olá! Finalmente associo a figura à voz – proferiu Teresa, enquanto lhe dava dois beijos no rosto.

- Olá! – Adriano parecia balbuciar, enquanto movia a mão para entregar o envelope que segurava

Teresa tira-o e dá-o a uma rapariga que vinha consigo, que depois se afastou deles.

Teresa começa a falar, quase da igual forma como haviam falado ao telefone. Com a mesma energia e vivacidade. Ela toma-lhe o braço e começa a explicar do que se trata naquele evento. Uma exposição de fotografias e o lançamento de um livro de viagens de um amigo dela que a convidou para ler umas passagens do livro. Adriano acenava e soltava alguns monossílabos. Pouco depois, Teresa olha para o relógio e deixa o braço de Adriano, e diz-lhe:

- Tu não te vais embora, ok? Isto daqui a meia hora acaba e vamos tomar algo aqui perto.

- Ok – respondeu Adriano ainda a balbuciar monossílabos

Teresa dirigiu-se para o palco e ficou perto do microfone. Dois homens aproximam-se, um deles do grupo dos artistas que Adriano havia “detetado” antes, e ouve-se um sino. Um deles começa a falar, agradecendo a presença de todos ali, e indicando que estavam ali para a apresentação do livro de viagens do autor ali ao seu lado, e anunciando que a Teresa Beságue, “conhecida poetisa e declamadora” irei ler um pouco do livro para todos.

Continuaram ainda a falar algo mais, mas Adriano pareceu desligar-se naquele momento. Naquele seu ar calmo e imperturbável, Adriano tinha uma verdadeira tempestade a desenvolver-se na sua mente. “Poetisa? Declamadora? Mas ela não trabalha num Instituto Público?”, pensou quando recordava um pouco da conversa ao telefone com Teresa. Mas não eram só esses os pensamentos que o perturbavam.

Teresa era uma mulher lindíssima. Loira de olhos castanhos, pouco mais baixa que ele – que até tem 1,85m – elegantíssima, de um porte firme, e gestos delicados. Adriano estava a olhar em redor à procura de “rotas de saída”. De desculpas para se ir embora, pois estava a sentir-se estranho e afetado pela situação. Porque o tinha convidado ali ir? E agora a dizer para irem tomar algo? O que se passa? Esta mulher é mais velha que ele – quem não é mais velho que 24 anos, como alguém lhe dizia – mas não deixa de ser uma... não encontrou palavras.

Adriano procurou acalmar-se. Dirigiu-se à mesa do bar e pediu água fresca. Não sabe porque está a sentir calor, mas achou que água fresca seria uma boa ideia. De seguida, começou o seu habitual jogo introspetivo de xadrez mental. O que emprega em todas as situações de expetativa, ou ansiedade, para encontrar a reação certa a ter perante situações adversas, ou em que se sinta em perigo. É um jogo que ele faz desde tenra idade. A certa altura, ouve aplausos na sala, e vira-se para o palco. Vê Teresa dirigir-se ao microfone, segurando um livro na mão que começa a ler. A sua voz aveludada que reconheceu da conversa ao telefone, agora associada a uma figura deslumbrante, continua a mexer com ele. Mas no seu jogo de xadrez, ele já concluiu que “aquilo” não vai dar em nada, e que mais não é do que uma pessoa a ser simpática por ter feito o seu trabalho bem feito, e encontrar uma forma de agradecer.

Seguramente, nada mais se iria passar.


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